Serpente não peçonhenta, a muçurana se alimenta de cobras venenosas e ajuda a reduzir riscos, acidentes e prejuízos na pecuária brasileira A cena pode parecer estranha para quem vive na cidade, mas é um espetáculo relativamente comum no meio rural: uma
muçuurana capturando e consumindo uma cascavel, uma das cobras mais perigosas do Brasil. No campo, essa imagem já virou motivo de conversa entre produtores que reconhecem a importância dessa serpente no equilíbrio natural. Para muitos que lidam diariamente com
gado, cavalos, ovelhas ou trabalham com suas famílias ao ar livre, a presença de cobras peçonhentas representa um perigo real e um prejuízo potencial. Animais como a
cascavel não apenas podem causar mortes de bovinos, equinos e cães, mas representam um risco direto à segurança do trabalhador rural, além de ocasionar
acidentes graves e perdas financeiras. Além do risco à saúde humana,
as picadas de cobras representam um problema recorrente e silencioso para a pecuária brasileira. Todos os anos, muitos pecuaristas relatam perdas de animais por ataques de serpentes peçonhentas, especialmente
cascavéis e jararacas, comuns em pastagens, áreas de mata, beiras de córregos e até próximas a currais e instalações rurais. Bovinos, equinos, cães de trabalho e outros animais acabam sendo surpreendidos, muitas vezes durante o pastejo ou no deslocamento dentro da propriedade. window._taboola = window._taboola || [];
_taboola.push({mode:'thumbnails-mid', container:'taboola-mid-article-thumbnails', placement:'Mid Article Thumbnails', target_type: 'mix'});O impacto dessas ocorrências vai além do número de animais perdidos.
Há registros de mortes de animais de alto valor genético, como
touros reprodutores, matrizes selecionadas e doadoras de embriões, cujo prejuízo financeiro e produtivo é significativo. Em sistemas de produção intensiva e de melhoramento genético, a perda de um único animal pode representar anos de investimento em genética, manejo e sanidade. Nesse cenário, a presença da mussurana no ambiente rural ganha ainda mais relevância, por contribuir de forma natural para a redução da circulação de cobras peçonhentas e, consequentemente, para a diminuição desses prejuízos ao produtor. É nesse contexto que a
muçurana se destaca como uma espécie valorizada no ambiente rural. Ao contrário das serpentes peçonhentas, a mussurana
não possui veneno perigoso para humanos e ainda desempenha um papel de controle natural de populações de serpentes mais perigosas. Segundo informações do Instituto Butantan, essa espécie se alimenta de outras cobras — um comportamento conhecido como ofiofagia — e é imune ao veneno de várias delas, incluindo jararacas e cascavéis. Símbolo histórico
Muçurana, também conhecida como cobra-preta, mussurana e limpa-pasto, deriva da palavra em tupi-guarani “muçum”, que significa alongado, esguio, corda (existe um peixe alongado chamado popularmente de muçum), e “rana” (aquele que tem forma de, aparência de). Ou seja, ela é parecida com o peixe muçum – também conhecido como “peixe-cobra”.
Foto: ButantanA famosa imagem da muçurana devorando a jararaca é vista como uma representação do bem contra o mal, do soro contra o envenenamento, e chegou a inspirar os logotipos do Butantan. O símbolo é encontrado em alto relevo na fachada do primeiro prédio do instituto, que hoje é a Biblioteca, e durante muito tempo estampou o selo que lacrava as embalagens dos soros.
A cobra-preta foi parar até em cédulas de 10 mil cruzeiros, expedidas entre 1991 e 1994 em homenagem a Vital Brazil. As notas apresentavam, de um lado, uma foto do cientista e uma ilustração da extração de veneno, e no verso, a muçurana atacando a jararaca. A cobra-preta foi parar até em cédulas de 10 mil cruzeiros, expedidas entre 1991 e 1994 em homenagem a Vital Brazil. As notas apresentavam, de um lado, uma foto do cientista e uma ilustração da extração de veneno, e no verso, a muçurana atacando a jararaca.
Foto: Mitternacht90 / Wikipédia O diferencial da mussurana O interesse dos produtores rurais pela mussurana vai além da convivência pacífica. Entre suas características principais estão:
Não é peçonhenta para humanos. Resistente aos venenos de outras cobras, o que lhe permite predar serpentes perigosas. Dieta especializada: inclui cascavéis, jararacas e cobras-coral em sua alimentação habitual. Por conta dessas características, muitos homens do campo e pesquisadores costumam dizer que “
onde tem mussurana, tem menos cobra perigosa”. Essa observação é menos uma garantia absoluta e mais um reconhecimento do papel ecológico que a espécie exerce no controle natural de predadores indesejados. Natureza em equilíbrio É importante ressaltar que, do ponto de vista ambiental, não se trata de classificar uma cobra como “boa” e outra como “ruim”, mas de entender que cada espécie desempenha seu papel no
equilíbrio ecológico. Mesmo as cobras venenosas têm sua função: ajudam a controlar populações de roedores e outros pequenos animais e mantêm a dinâmica natural dos ecossistemas.
No entanto, para quem vive e trabalha no campo, a presença de uma serpente
não peçonhenta como a mussurana, que ajuda a reduzir a presença de espécies perigosas sem intervenção humana, é encarada como uma aliada — especialmente na proteção de animais domésticos e pessoas. Depoimento de campo Um leitor do portal
CompreRural compartilhou sua experiência pessoal com a mussurana em sua propriedade. “Tenho uma mussurana no meu sítio ao redor da casa há aproximadamente 5 anos, tem mais ou menos 1,5 m de comprimento. Não permito que ninguém toque nela; só entrou dentro de casa uma vez, mas trato com todo carinho, é aparentemente calma” –relatou o seguidor. Esse tipo de relato ilustra como a relação entre humanos e essa espécie pode ser de
convivência respeitosa, baseada no reconhecimento do seu papel no ambiente rural.
Com informações do Instituto Butantan