“Petro vem da guerrilha M-19, Cepeda tem histórico de legislador. São perfis diferentes dentro da esquerda colombiana. O Cepeda tem história e trajetória próprias, que não são pequenas, uma vez que enfrentou Álvaro Uribe, talvez a principal figura da direita colombiana”, disse o especialista.
Geopolítica das Américas
O também mestrando em política internacional Matheus Petrelli lembra que a Colômbia é um país estratégico na América do Sul por ter saída para o Pacífico e Caribe, sendo peça importante no contexto americano.Até a eleição de Petro, em 2022, a Colômbia era considerada uma das principais aliadas de Washington na América do Sul.“O Petro tentou muito se vincular politicamente ao Lula no contexto regional, em pautas ambientais e sociais. A eleição do seu sucessor representa a manutenção dessa proximidade. Já a eleição de Paloma ou Abelardo representaria a retomada do processo de vínculo mais estreito com os EUA”, disse.
Construção do sucessor
O mestrando da UFRJ Matheus Petrelli ressaltou que o candidato da esquerda Ivan Cepeda denunciou o ex-presidente da Colômbia Álvaro Uribe (2002-2008), ícone da direita do país, no caso dos falsos positivos, que chocou a opinião pública. Estima-se que cerca de 7,8 mil pessoas foram assassinadas entre 2002 e 2008, durante o governo de Uribe, pelas Forças Armadas do país, segundo a Jurisdição Especial para Paz, tribunal criado para investigar os crimes dos conflitos colombianos. As pessoas, maioria jovens de áreas pobres, eram mortas e apresentadas como guerrilheiros caídos em combate como forma de inflar os números da guerra travada pelo Estado contra os grupos paramilitares. Em agosto de 2025, o ex-presidente Uribe se tornou o primeiro presidente da Colômbia condenado, em primeira instância, acusado de fraude processual e suborno de testemunhas no processo de investigação dos falsos positivos. O agora candidato Iván Cepeda foi um dos responsáveis por reunir informações contra Uribe no processo. Porém, em outubro de 2025, Uribe foi absolvido da acusação em segunda instância.Governo Petro
Além de crescer politicamente no combate ao uribismo, Cepeda herda a popularidade do governo Gustavo Petro, que viu a aprovação aumentar ao longo do mandato. Ele saiu de uma aprovação de 23%, em 2023, para 49,1%, em fevereiro deste ano, segundo pesquisa Invamer. O especialista da OPSA avalia que esse foi um resultado da implementação de reformas sociais, como a trabalhista, a agrária e a previdenciária, com mais direitos para trabalhadores, camponeses e aposentados, somado ao aumento dos salários acima da inflação. “Em dezembro de 2025, houve aumento de 23% do salário mínimo, medida bem popular. Além disso, tem a relação com Trump, que a extrema-direita apoia. Mas parte da sociedade colombiana embarcou na posição do Petro, de maior enfrentamento com Trump. "Acho que isso faz com que essa popularidade dele aumente à medida do tempo”, destacou Matheus. Em março deste ano, o Pacto Histórico do Petro se consolidou como a principal força política do Senado, com 25 acentos, cinco a mais que na eleição de 2022, e à frente dos tradicionais partidos de direita Centro Democrático (17) e Partido Liberal (13). Apesar do favoritismo, o especialista Matheus Petrelli pondera que o resultado no segundo turno é incerto.“As próprias pesquisas apontam cenários completamente distintos para o segundo turno. Algumas de Cepeda ganham dos dois, em outras Cepeda perde dos dois, então está bem embaralhado. Não dá para cravar nada”, comentou.
Extrema-direita
Um dos adversários do candidato governista Iván Cepeda é o advogado multimilionário Abelardo de La Espriella, que se apresenta como outsider, ou seja, como alguém de fora da política. Ele elogia figuras da extrema-direita latino-americana como Nayib Bukele, de El Salvador, Javier Milei, da Argentina, além de Donald Trump, dos Estados Unidos. Matheus Petrelli lembra que Espriella deixou a vida luxuosa que tinha na Itália para se candidatar a presidente do país por meio de uma plataforma focada no aumento da repressão contra a criminalidade.Entre os clientes de Espriella, esteve o ex-aliado do governo de Nicolás Maduro sancionado pelos EUA, Alex Saab, empresário que virou diplomata da Venezuela, além de Jorge Visbal, condenado por nexos com paramilitares na Colômbia.“Ele representa justamente esse candidato que é a cara da extrema-direita sul-americana, esse perfil de alguém que é de fora da política, que não está envolvido com essa velha política, entre aspas. Só que, ao mesmo tempo, é um advogado que já representou figuras políticas controversas”, afirmou.
Direita tradicional
Segundo as pesquisas, quem disputa com Espriella uma vaga no segundo turno é a senadora de oposição Paloma Valência, do Centro Democrático, partido do ex-presidente Álvaro Uribe, a quem se declara fiel seguidora. Ela sugeriu nomear Uribe para o Ministério da Defesa do país. Assim como o padrinho político, Paloma foi adversária fervorosa dos acordos de paz com as Farcs, em 2016, e defende o enfrentamento às guerrilhas sem qualquer diálogo.“De fato, ela representa essa direita tradicional. O partido do Uribe virou a segunda força política no Senado. Apesar de Abelardo ser esse fenômeno outsider e aparecer, em algumas pesquisas, como favorito para ir ao segundo turno com o Cepeda, o uribismo teve certa recuperação política”, disse Matheus.





