• Segunda-feira, 9 de março de 2026

China transforma deserto em potência tecnológica e agrícola com data centers e “sementes de solo”

Data centers no meio do deserto: a solução verde encontrada pela China para os dados; Do cultivo em areia à computação de alta performance, o país aposta em ciência, biotecnologia e energia renovável para transformar regiões áridas em polos estratégicos de produção, tecnologia e sustentabilidade

Data centers no meio do deserto: a solução verde encontrada pela China para os dados; Do cultivo em areia à computação de alta performance, o país aposta em ciência, biotecnologia e energia renovável para transformar regiões áridas em polos estratégicos de produção, tecnologia e sustentabilidade A China vem conduzindo uma série de iniciativas científicas e tecnológicas que estão mudando completamente a forma como o mundo enxerga os desertos. Regiões antes consideradas inóspitas e improdutivas estão sendo convertidas em centros digitais de alta tecnologia e áreas com potencial agrícola, graças a projetos que combinam biotecnologia, inteligência ambiental e infraestrutura energética limpa. No deserto de Gobi, no norte do país, surgem data centers de última geração alimentados por energia renovável e resfriados naturalmente pelo clima extremo. Ao mesmo tempo, cientistas desenvolvem tecnologias capazes de transformar areia em solo fértil em poucos anos, utilizando microrganismos que recriam as bases biológicas do solo.
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  • Essas iniciativas fazem parte de uma estratégia nacional mais ampla que busca combater a desertificação, ampliar a segurança alimentar e fortalecer a soberania tecnológica do país, transformando áreas áridas em ativos estratégicos para o futuro da economia digital e da produção agrícola. window._taboola = window._taboola || []; _taboola.push({mode:'thumbnails-mid', container:'taboola-mid-article-thumbnails', placement:'Mid Article Thumbnails', target_type: 'mix'});Data centers no deserto: tecnologia aproveitando a natureza No vasto deserto de Gobi — onde os ventos são intensos e as temperaturas podem chegar a –30 °C no inverno — a China está instalando uma nova geração de data centers. Essas instalações foram projetadas para aproveitar justamente as condições climáticas extremas da região. O frio natural permite resfriar servidores com muito menos energia, reduzindo drasticamente a necessidade de sistemas tradicionais de ar-condicionado, que normalmente consomem grandes quantidades de eletricidade e água. Esse modelo integra o programa nacional chamado “Computação do Leste para Dados do Oeste”, lançado em 2022. O objetivo é redistribuir o processamento digital do país:
  • As regiões orientais concentram a demanda tecnológica e populacional.
  • O oeste possui grandes áreas disponíveis, clima favorável e abundância de energia renovável.
  • Assim, tarefas intensivas de processamento — como inteligência artificial, armazenamento em nuvem e análise de dados — podem ser transferidas para regiões menos povoadas. Eficiência energética muito acima da média mundial O diferencial dessa estratégia está na eficiência energética. A métrica utilizada no setor de tecnologia para medir o consumo dos data centers é o PUE (Power Usage Effectiveness).
  • Média global: entre 1,5 e 1,8
  • Data centers no deserto de Gobi: aproximadamente 1,1 ou até menos
  • Isso significa que quase toda a energia consumida é utilizada diretamente para computação, com perdas mínimas em resfriamento e infraestrutura. Além do frio natural, a região possui grandes parques eólicos e solares, fornecendo energia limpa diretamente para as instalações. Empresas gigantes da tecnologia, como Huawei, Tencent e Alibaba, já operam ou expandem seus centros de dados nessa área. Essa combinação reduz significativamente as emissões de carbono associadas à economia digital. Um único centro de grande porte instalado no Gobi pode evitar a emissão de dezenas de milhares de toneladas de CO₂ por ano, quando comparado a estruturas semelhantes alimentadas por carvão em grandes cidades chinesas. A estratégia também fortalece a soberania tecnológica Outro objetivo importante da iniciativa é aumentar a resiliência da infraestrutura digital do país. Ao descentralizar os data centers e distribuí-los por regiões remotas, a China diminui riscos associados a grandes centros urbanos, como falhas concentradas de infraestrutura ou vulnerabilidades cibernéticas. Além disso, esses projetos contribuem para desenvolver economicamente regiões antes pouco exploradas, criando empregos técnicos e estimulando investimentos em infraestrutura, como redes de fibra óptica de alta velocidade que conectam essas áreas aos grandes centros tecnológicos. Assim, o deserto de Gobi começa a ser visto não mais como um vazio geográfico, mas como uma nova fronteira da economia digital e da computação sustentável. Cientistas criam “sementes de solo” para transformar areia do deserto em terra fértil Enquanto a tecnologia digital ocupa parte dos desertos chineses, pesquisadores trabalham em outra frente igualmente ambiciosa: converter areia em solo capaz de sustentar vegetação e agricultura. Pesquisadores da Academia Chinesa de Ciências desenvolveram uma tecnologia baseada em cianobactérias — microrganismos capazes de formar uma crosta biológica sobre a superfície do solo. Cientistas criam “sementes de solo” para transformar areia do deserto em terra fértil
    Área Cênica de Shapotou na cidade de Zhongwei, Região Autônoma de Ningxia Hui, noroeste da China – Foto: VCG
    Esses organismos são incorporados em uma espécie de “semente de solo”, um composto sólido que pode ser espalhado sobre a areia. Quando ocorre chuva, as bactérias se ativam e começam a:
  • agrupar partículas de areia
  • formar um biofilme estável
  • reter umidade
  • fixar nitrogênio
  • iniciar o ciclo biológico do solo
  • Esse processo cria gradualmente uma camada que permite o crescimento de plantas e outras formas de vida. Processo que levava décadas pode acontecer em apenas dois anos A formação natural de crostas biológicas no solo costuma levar entre 10 e 15 anos em ambientes desérticos. Com a nova tecnologia, os cientistas conseguiram reduzir esse processo para cerca de 1 a 2 anos, alcançando taxas de sobrevivência microbiana superiores a 60%. Isso foi possível graças a um método que injeta os microrganismos entre os grãos de areia e utiliza uma formulação sólida que pode ser facilmente transportada e distribuída em grandes áreas. A técnica já começou a ser integrada ao Programa Florestal Quebra-Vento dos Três Nortes, um dos maiores projetos de reflorestamento do planeta. O plano prevê restaurar de 80 mil a 100 mil acres de áreas degradadas nos próximos cinco anos, ajudando a estabilizar desertos e recuperar ecossistemas. Uma nova abordagem para combater a desertificação Historicamente, a China já investia em métodos para conter o avanço dos desertos. Um dos mais conhecidos é a chamada “rede de palha”, usada desde a década de 1950. Essa técnica consiste em organizar palha em grades sobre a areia para reduzir a força do vento e impedir o deslocamento das dunas. O novo método biológico, porém, representa uma evolução importante: em vez de simplesmente bloquear o movimento da areia, ele reconstrói o ecossistema desde a base microbiológica. As cianobactérias desempenham funções fundamentais:
  • estabilizam o solo
  • aumentam a retenção de água
  • fixam nitrogênio
  • participam do ciclo do carbono
  • Esses fatores são essenciais para a regeneração de áreas degradadas. O deserto como nova fronteira da inovação A combinação de tecnologia digital, energia renovável e biotecnologia ambiental mostra como a China está redefinindo o papel das regiões áridas em sua estratégia nacional. Enquanto parte dos desertos se transforma em infraestrutura crítica da economia digital, outra parte pode se tornar território recuperado para vegetação, reflorestamento e agricultura futura.
    Por: Redação

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