Luciane explica que o grupo criou um protocolo para identificar diversos tipos de discurso misógino."Não é só a opinião deles, mas também é uma oportunidade de ganhar dinheiro, pautada na humilhação, inferiorização, na subjugação de mulheres," explicou.
O relatório mostra que a popularização desses vídeos é um fenômeno recente. Apesar do vídeo mais antigo ter sido postado em 2021, 88% deles foram publicados a partir de 2021, e pouco mais da metade (52%) entraram na plataforma entre janeiro de 2023 e abril de 2024. Já de abril para cá, cerca de 25 mil novos vídeos foram postados. Para definir quais canais disseminam conteúdo misógino, o estudo considerou apenas aquelas que continham pelo menos três vídeos com ao menos uma manifestação de ódio às mulheres. O tema mais recorrente, no qual 42% dos vídeos foram enquadrados, foi "Desprezo às mulheres e estímulo à insurgência masculina.” Nessa categoria, foram incluídos vídeos "que conclamam os homens a não se deixarem dominar pelas mulheres", ao mesmo tempo em que estimulam que elas sejam tratadas com desprezo. Os conteúdo também disseminam a ideia de que as iniciativas por igualdade de gênero são estratégias de dominação social contra os homens."Nós trabalhamos com um conceito de misoginia que não está só concentrado no ódio e na promoção da violência direta, mas também nos sentimento de desprezo e aversão, e na ideologia que parte do pressuposto de que as mulheres precisam ser subjugadas e inferiorizadas", complementa.
Mas a pesquisadora explica que alguns influenciadores também utilizam estratégias para dissimular seu conteúdo, como o uso de abreviações e apelidos. A palavra "mulher", por exemplo, é substituída por "colher", e mães solo, um dos grupos mais atacados são chamadas de "msol". "Às vezes, a opinião não é expressada de forma verbal, mas quando você olha para as imagens que ilustram os vídeos, elas mostram a mulher ajoelhada aos pés do homem ou hipersexualizada com decotes imensos e etc, complementa. Ela cobra mais responsabilização das plataformas: "A criminalização da misoginia seria um caminho que poderia contribuir para minimização desses discursos, mas além da questão da criminalização, a gente também precisa continuar discutindo qual é o papel das plataformas em relação à soberania do país mesmo. Se é crime fora da internet, precisa ser crime dentro da internet." A Google, empresa responsável pela plataforma Youtube, foi procurada mas ainda não respondeu à reportagem."A gente encontrou conteúdos muito explícitos. Quando a gente olha para as palavras, por exemplo, que são usadas para descrever as mulheres, a gente identifica termos como "burra" e "vagabunda" que são muito usados. Isso foi, de certa forma, até uma surpresa, porque a gente pensava que a plataforma derrubava esse tipo de conteúdo", diz Luciane.





