O que cabe em 70 gramas? Para a maioria, apenas algumas xícaras de café. Para Luiz Paulo Dias Pereira Filho, coube a quebra de um paradigma. No dia 1º de maio, um pacote dessa exata gramagem da variedade Geisha, colhido e processado artesanalmente na Fazenda Harus, em Carmo de Minas (MG), foi arrematado por R$ 3.000 em um leilão via redes sociais. O valor, que equivale a cerca de R$ 600 por xícara, surpreendeu até o produtor, que iniciou o lance em apenas R$ 1.
Quarta geração de uma família de cafeicultores e reconhecido internacionalmente como a "primeira lenda do café especial do Brasil", Luiz Paulo não busca apenas recordes de preço, mas a valorização da assinatura do produtor.
O leilão começou quase como uma brincadeira entre amigos e provadores que se encantaram com as notas florais e de jasmim daquela pequena amostra. Luiz conta que a expectativa era arrecadar, no máximo, R$ 400.
"O negócio perdeu o controle. As pessoas começaram a compartilhar e surgiram lances de R$ 1.500, R$ 2.000... só parou em R$ 3.000 porque tínhamos combinado de encerrar às 13h. Teve gente oferecendo mais logo depois. O mercado de luxo existe e as pessoas querem os melhores cafés", revelou Luiz Paulo à Itatiaia.
Com 26 anos de atuação no mercado de cafés especiais e exportando para 35 países, o produtor mineiro agora foca em um novo projeto: a busca pelo "grão perfeito". Para isso, montou um laboratório de processamento onde controla cada etapa após a colheita. Mais do que técnica, ele prega uma mudança de mentalidade.
Para Luiz, o Brasil precisa seguir o exemplo da indústria do vinho. Assim como um grande rótulo é assinado por um enólogo, o café de altíssima qualidade deve levar a marca de quem o preparou.
O café está precisando disso: o paradigma do coffee maker. A pessoa que assina aquele café de assinatura. Quando você chegar num restaurante, não vai ver só de onde o café vem, mas quem foi o profissional que o preparou. Alguém tem que começar essa caminhada dos cafés de luxo no Brasil.
A Fazenda Harus funciona como um verdadeiro santuário da biodiversidade cafeeira, abrigando 32 variedades diferentes. Entre as joias da coroa está o Eugenoides, um café raríssimo cuja saca pode ser avaliada em R$ 100 mil. No leilão recente, a estrela foi o Geisha, variedade famosa pela doçura e complexidade, que atingiu mais de 90 pontos em avaliações sensoriais.
"É um café que tem uma doçura incrível, um café jasmim, papaia e muito floral. Eu mesmo fui na plantação, selecionei os frutos e sequei para saber tudo o que aconteceu. O produtor tem que ter orgulho do que faz e, principalmente, conhecer o que tem dentro da sua fazenda", afirmou Luiz Paulo.
Embora o foco histórico de Luiz tenha sido a exportação, ele agora se dedica a desenvolver o mercado brasileiro de alto padrão. O objetivo não é o volume, mas a "extrema qualidade". Ao provar que há brasileiros dispostos a pagar por uma experiência sensorial única, Luiz Paulo Dias Pereira Filho coloca Carmo de Minas definitivamente na rota global do luxo gastronômico.





