• Sexta-feira, 24 de abril de 2026

Argentinos passam a comer carne de burro e lhama após preço da carne bovina disparar 55%; entenda

Consumo revela crise profunda no país, Com inflação elevada e perda de poder de compra, população busca alternativas mais baratas - argentinos passam a comer carne de burro, enquanto especialistas apontam mudança estrutural no consumo e na economia argentina

A tradicional relação dos argentinos com a carne bovina — símbolo cultural e base da alimentação no país — começa a dar sinais de transformação. Em meio à disparada dos preços, que acumulam altas expressivas nos últimos meses, consumidores passaram a buscar alternativas antes impensáveis, como carne de burro e lhama, revelando um cenário econômico mais amplo e preocupante.

De acordo com reportagem publicada pela Veja , a situação ganhou destaque na cidade de Trelew, na Patagônia, onde o quilo da carne bovina já ultrapassa os 25 mil pesos argentinos (cerca de R$ 90) em alguns pontos de venda. Em contraste, a carne de burro passou a ser comercializada por cerca de 7.500 pesos (aproximadamente R$ 27), tornando-se uma alternativa significativamente mais acessível.

Inflação pressiona consumo e muda hábitos alimentares: Argentinos passam a comer carne deburro

O avanço dessas alternativas está diretamente ligado à inflação. Segundo dados citados, o aumento anualizado dos preços de carnes e derivados chegou a 55,1% em março, com variações que atingem até 61,5% em algumas regiões do país . Esse cenário impacta diretamente o consumo.

Informações da BBC reforçam que o consumo de carne bovina caiu cerca de 10% no primeiro trimestre, atingindo o menor nível em duas décadas . A mudança é significativa em um país historicamente conhecido pelo alto consumo de carne vermelha, que já chegou a 82 kg por habitante ao ano décadas atrás, mas hoje gira em torno de 45 kg.

Além disso, o consumo total de proteínas animais vem se diversificando: atualmente, os argentinos consomem mais carne de frango do que bovina, um reflexo direto da pressão econômica .

Projeto com carne de burro ganha espaço — mas ainda é pontual

A introdução da carne de burro no mercado não ocorreu apenas por conta da crise, mas acabou ganhando força nesse contexto. O produtor rural Julio Cittadini criou o projeto “Burros Patagones”, que inclui a produção e comercialização da carne.

Segundo relatos, a iniciativa contou até com degustações públicas, com pratos como empanadas, linguiças e assados, que tiveram boa aceitação entre os consumidores . Restaurantes locais chegaram a registrar alta demanda, com produtos esgotando rapidamente após a estreia .

Ainda assim, especialistas apontam que o consumo de carne de burro é limitado e pontual, sem impacto significativo na cadeia produtiva nacional no momento. No entanto, o fenômeno chama atenção por refletir uma tendência mais ampla: a busca por alternativas diante da perda de poder aquisitivo.

Mais barata e adaptada: por que o burro virou alternativa

Além do preço, há fatores produtivos que favorecem essa nova opção. Em regiões como a Patagônia, a criação de burros apresenta vantagens importantes:

  • Maior resistência ao clima árido e rigoroso
  • Menor exigência de recursos em comparação ao gado bovino
  • Facilidade de adaptação a ambientes hostis
  • A iniciativa também surge em um contexto de dificuldades enfrentadas por outras cadeias, como a ovinocultura, afetada por predadores, baixa rentabilidade e condições climáticas adversas .

    Carne de lhama entra na disputa como opção saudável

    Outra proteína que começa a ganhar espaço é a carne de lhama. Produzida em sistemas mais naturais, ela é apontada como uma alternativa saudável, com características nutricionais diferenciadas.

    Entre os destaques estão:

  • Baixo teor de gordura (entre 1% e 2%)
  • Alta concentração de proteínas
  • Baixo colesterol e alta digestibilidade
  • Produtores locais apostam na expansão desse mercado, tanto pela demanda crescente quanto pelo potencial de desenvolvimento econômico em regiões áridas .

    Crise econômica por trás da mudança no prato

    O avanço dessas alternativas não pode ser analisado isoladamente. Ele está diretamente ligado à situação econômica do país. A inflação acumulada, a queda da atividade industrial e a perda de empregos têm pressionado o consumo.

    Dados indicam que a indústria argentina vem registrando retração, com perda mensal de empregos e queda na produção. Ao mesmo tempo, setores como agro, energia e mineração crescem, mas sem absorver mão de obra na mesma proporção .

    Esse desequilíbrio cria um cenário de crescimento econômico desigual, onde parte da população enfrenta dificuldades crescentes para manter o padrão de consumo — inclusive alimentar.

    Mudança cultural à vista?

    Embora ainda restrito, o consumo de carne de burro e lhama levanta um debate importante: até que ponto a crise econômica pode alterar hábitos culturais profundamente enraizados?

    A carne bovina sempre foi um dos pilares da identidade argentina. No entanto, os dados mostram que o preço começa a redefinir escolhas, abrindo espaço para novas proteínas e redesenhando o comportamento do consumidor. Mais do que uma curiosidade gastronômica, o fenômeno expõe uma realidade clara: quando o bolso aperta, até tradições históricas entram em transformação.

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    Por: Redação

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