• Sexta-feira, 24 de abril de 2026

Guerra entre EUA e Irã impacta exportações brasileiras de madeira e amplia incertezas no setor

Tensão no Oriente Médio afeta logística, eleva custos e derruba exportações de madeira brasileira no início de 2026

O agravamento das tensões no Oriente Médio, com o conflito entre Estados Unidos e Irã, já provoca efeitos diretos e indiretos nas exportações brasileiras de madeira. O tema foi destaque no episódio 25 do podcast da WoodFlow, que reuniu especialistas para analisar o cenário internacional e os reflexos no desempenho do setor no primeiro trimestre de 2026.

Participaram do episódio Gustavo Milazzo, CEO da WoodFlow, Marcelo Wiecheteck, head de Desenvolvimento Estratégico da STCP, e Ailson Loper, diretor-executivo da APRE Florestas. Ao longo da conversa, os convidados destacaram que o impacto logístico da guerra, especialmente no estreito de Ormuz, uma das principais rotas marítimas do mundo, tem afetado diretamente o fluxo de mercadorias, elevando riscos e custos para exportadores.

Cerca de 20% do petróleo global e uma parcela relevante de fertilizantes passam pela região, o que amplia o efeito da crise para além do Oriente Médio, pressionando custos industriais e logísticos em escala global. Segundo Wiecheteck, esse cenário tem reflexos diretos no setor florestal, desde a produção até o consumo final, uma vez que a madeira deixa de ser prioridade de compra em momentos de instabilidade econômica e geopolítica.

Os dados apresentados no episódio mostram que, apesar de o primeiro trimestre de 2026 ter registrado volumes expressivos para o Oriente Médio, superando os mesmos períodos de 2024 e 2025, houve uma queda acentuada ao longo dos meses neste ano. Em janeiro, as exportações para a região se aproximaram de US$ 18 milhões, mas recuaram de forma significativa em fevereiro e despencaram em março, com cerca de US$ 6 milhões embarcados.

A retração é ainda mais evidente quando analisado o comércio com países do Golfo Pérsico, que registrou queda de até 80% entre janeiro e março. Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita, importantes destinos para produtos como madeira serrada de pinus, móveis e compensados, estão entre os mercados mais impactados.

Impactos já foram sentidos no primeiro trimestre de 2026.

Para Milazzo, a velocidade com que o cenário se deteriorou surpreendeu o setor. “Cargas que já estavam no mar precisaram ser desviadas, e negociações foram interrompidas. Isso mostra como o ambiente internacional pode mudar rapidamente e afetar diretamente o planejamento das empresas”, afirmou.

Além do impacto imediato nas exportações, os especialistas alertam para um problema estrutural: a dificuldade de planejamento. De acordo com Ailson Loper, o setor florestal trabalha com horizontes de longo prazo, mas atualmente enfrenta um nível de incerteza que inviabiliza previsões até mesmo no curto prazo. “Estamos em um cenário em que não conseguimos enxergar uma semana à frente, o que torna ainda mais desafiador tomar decisões que envolvem ciclos de 7, 15 ou 20 anos”, destacou.

O episódio também contextualiza que o setor já vinha de um período desafiador em 2025, marcado por mudanças tarifárias e ajustes de mercado. O Oriente Médio, que apresentou-se como alternativa estratégica para exportadores brasileiros, especialmente após a retração de outros mercados, passa agora a representar um ponto de atenção diante da instabilidade.

Outro fator de pressão é o aumento no preço do petróleo, que impacta diretamente os custos de produção, transporte e insumos. Com picos que podem ultrapassar US$ 120 por barril, a tendência é de elevação generalizada de preços, redução do consumo e maior seletividade por parte dos compradores, avaliaram os entrevistados.

Apesar do cenário adverso, os especialistas avaliam que a crise tende a ser temporária, embora sem previsão de duração. Nesse contexto, a diversificação de mercados, o olhar para o mercado interno e o investimento em produtos de maior valor agregado aparecem como caminhos estratégicos para o setor.

O episódio 25 do podcast da WoodFlow reforça que, mais do que uma retração pontual, o momento exige leitura estratégica do cenário global e capacidade de adaptação. Em meio a custos elevados, volatilidade cambial e instabilidade geopolítica, o setor de madeira enfrenta um dos períodos mais desafiadores dos últimos anos.

Por: Redação

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