O mercado imobiliário brasileiro vive um momento de dualidade em 2026. Durante um evento realizado pela Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) nesta quarta-feira (15), em Campinas (SP), líderes do setor e representantes do governo debateram o futuro da habitação no Brasil, equilibrando o otimismo de investimentos recordes com o receio sobre a sustentabilidade dos fundos de garantia.
O cenário atual é marcado pelo anúncio do presidente Lula de um aporte de R$ 20 bilhões para o programa Minha Casa Minha Vida. No entanto, para Luiz França, presidente da Abrainc, o investimento não compensa o risco gerado pela proposta do governo federal de liberar R$ 17 bilhões do FGTS para que trabalhadores endividados abatam seus débitos.
França classificou a medida como "preocupante", argumentando que ela desvirtua a finalidade do fundo. Segundo o dirigente, o governo não consegue atender simultaneamente aos subsídios para habitação e saneamento se o montante do FGTS for drenado para outras finalidades. "Se você tira dinheiro do fundo, prejudica o comprador do imóvel", alertou, lembrando que o Brasil possui um déficit habitacional de 5,81 milhões de moradias, concentrado na população de baixa renda.
Apesar das críticas da Abrainc, o diretor de habitação da Caixa Econômica Federal, Roberto Cerato, mantém uma postura otimista. Em entrevista à CNN, Cerato reconheceu que o uso do FGTS para dívidas pode ter impactos, mas ressaltou que o orçamento do fundo para 2026 é recorde: apenas o Minha Casa Minha Vida contará com cerca de R$ 115 bilhões para este ano.
Para o diretor da Caixa, mesmo com os desafios da alta taxa de juros e as incertezas geopolíticas, o mercado deve registrar um desempenho histórico. "Devemos ver um boom imobiliário em 2026", afirmou Cerato, apostando na força do crédito habitacional.
Segundo Ceratto, o governo já possui um orçamento aprovado e garantido até 2028. Sobre o debate de liberação para dívidas, o diretor confirmou que estudos de capacidade estão sendo conduzidos para garantir a segurança e a rentabilidade do fundo. "Eu acho que o governo, de forma alguma, quer trazer impacto ou descontinuidade ao programa. Pelo contrário, o objetivo é chegar a 1 milhão de unidades ainda este ano", afirmou Ceratto.
Além das questões macroeconômicas, a renegociação de dívidas proposta pelo governo traz à tona a necessidade de conscientização. Luiz França destacou que qualquer redução ou aumento de prazo nos empréstimos deve ser acompanhado de um processo educativo. Para o setor, de nada adianta o alívio imediato no bolso do trabalhador se não houver educação financeira para evitar novos endividamentos que comprometam a capacidade futura de aquisição da casa própria.





