• Domingo, 17 de maio de 2026

Sadia X Perdigão: como rivalidade entre gigantes de SC virou um império de R$ 164 bilhões

Sadia e Perdigão, criadas no oeste de SC, protagonizaram uma rivalidade que terminou na BRF e, atualmente, na MBRF

Duas empresas nasceram no interior de Santa Catarina, a cerca de 120 quilômetros de distância, e passaram décadas disputando o mesmo mercado. Sadia, em Concórdia, fundada em 1944, e Perdigão, em Videira, criada em 1934, cresceram em paralelo, moldando a indústria de carnes no país.

Essa concorrência direta por produto, mercado e escala terminou em 2009, quando as duas rivais anunciaram oficialmente a fusão que criou a Brasil Foods, mais tarde BRF, focada em carnes de aves e suínos. Em 2025, o grupo voltou a se transformar com a união com a Marfrig, especializada em carne bovina, dando origem à MBRF.

Hoje a MBRF virou um império presente em 117 países, com uma receita líquida de R$ 164 bilhões por ano e venda 8,2 milhões de toneladas de alimentos, segundo um balanço de 2025 divulgado pela própria companhia, em março deste ano.

Sadia e Perdigão tem origens em cidades distantes cerca de 120 km. A Perdigão surgiu primeiro, em 1934, em Videira, no Meio-Oeste catarinense, pelas famílias Ponzoni e Brandalise, descendentes de italianos.

Inicialmente, o negócio era concentrado no abate de suínos e venda de alimentos, mas, com o aumento da produção, a empresa passou a investir na criação própria de animais e na estruturação da cadeia agroindustrial. Esse movimento, baseado na integração entre produtores rurais e indústria, foi decisivo para o crescimento da companhia, como registra a Associação Catarinense de Criadores de Suínos (ACCS).

Já a Sadia surgiu dez anos depois, em 1944, em Concórdia, no Oeste de Santa Catarina, fundada por Attilio Fontana. No início, a empresa operava com um pequeno moinho e um frigorífico ainda em construção mas em 1946, já abatia mais de 100 suínos por dia. Desde o início, estabeleceu foco no processamento de carnes e na distribuição para centros consumidores mais distantes, especialmente o Sudeste.

Ao longo das décadas, Sadia e Perdigão competiram por espaço nos supermercados, exportações, inovação e participação no mercado brasileiro. Nos anos 1970, a rivalidade foi parar nas ceias de fim de ano. Enquanto a Sadia dominava o mercado de perus, a Perdigão decidiu reagir com a criação de um novo produto que até então não existia: o Chester.

— Não era viável, na época, trazer mais uma ave para competir com o mesmo peru da Sadia. Com isto, a Perdigão foi em busca de uma ave diferenciada, que depositasse carne no peito e nas coxas — relembrou o veterinário aposentado Vitor Hugo Brandalise, sobrinho dos fundadores da Perdigão, em entrevista ao NSC Total em 2025.

O Chester surgiu a partir de melhoramento genético, em 1979, a partir de ovos importados dos Estados Unidos. Atualmente, sabe-se que a ave nada mais é do que um frango de maior porte, que pesa entre 4 kg e 4,5 kg. O produto chegou ao mercado em 1982, com o slogan “Habemus Chester”, e passou a disputar diretamente o consumo das festas, até então centrado no peru da concorrente.

A disputa saiu do campo comercial e chegou ao controle das empresas nos anos 2000. Em 2006, a Sadia tentou adquirir a Perdigão em uma operação avaliada em cerca de R$ 3,7 bilhões, considerada hostil e rejeitada pelos acionistas da rival.

Dois anos depois, o cenário se inverteu. Na crise financeira global de 2008, a Sadia sofreu perdas bilionárias, registrando um prejuízo próximo de R$ 2,5 bilhões no fechamento daquele ano, além de um aumento significativo do endividamento, que não poderia ser coberto apenas pela geração operacional do negócio. Sem capacidade de reequilibrar as contas, a empresa iniciou negociações com a concorrente.

A união foi anunciada oficialmente em 19 de maio de 2009 e deu origem à Brasil Foods, depois rebatizada de BRF. A nova companhia nasceu com 119 mil funcionários, 42 fábricas e faturamento anual líquido de R$ 22 bilhões, segundo reportagem de O Globo da época.

Apesar do ganho de escala, o crescimento da BRF foi mais lento que o de concorrentes diretos, conforme um estudo feito na Universidade de São Paulo (USP). Entre 2008 e 2021, a receita operacional bruta da companhia passou de cerca de R$ 25,4 bilhões para R$ 56 bilhões. No mesmo período, a JBS avançou de R$ 31,1 bilhões para R$ 361,5 bilhões.

O movimento mais recente veio em 2025, com a fusão entre BRF e Marfrig, criando a MBRF. No primeiro ano após a consolidação, a empresa reportou receita líquida recorde de R$ 164 bilhões e volume de 8,2 milhões de toneladas de alimentos, com presença em 117 países, segundo a companhia.

Por: NSC Total

Artigos Relacionados: