A Polícia Federal disse ao Supremo Tribunal Federal que a Polícia Militar do Rio de Janeiro não enviou as gravações das câmeras corporais dos agentes que atuaram na operação Contenção. A ação policial aconteceu em outubro de 2025 e deixou 122 mortos. A informação consta em um ofício encaminhado ao STF pelo diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, nesta 2ª feira (6.abr.2026).
“Verificou-se a incompletude do acervo probatório recebido, o qual refere-se exclusivamente às imagens captadas pelas câmeras corporais dos agentes da CORE/PCERJ, sendo que, até o presente momento, não foi recebido qualquer acervo audiovisual rela o às equipes da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ), que atuaram na operação com efetivo significativamente maior e número substancialmente superior de dispositivos de gravação corporal”, escreveu Andrei.
O ofício foi endereçado ao ministro Alexandre de Moraes, relator da ADPF (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental) 635, conhecida como a ADPF das Favelas. Eis a íntegra (PDF – 989 kB).
No mesmo documento, Rodrigues solicitou ampliação do prazo para finalizar a análise pericial das imagens que foram enviadas pela Polícia Militar. Moraes havia dado 15 dias para a PF verificar as imagens, em 17 de março.
O diretor-geral da PF, por sua vez, afirmou que uma equipe composta por 10 peritos federais foi designada para examinar o material recebido. Rodrigues afirmou que, “à luz das condições atualmente verificadas”, não é possível completar o trabalho no período de 15 dias determinado pelos ministros da Corte. O volume de gravações ultrapassa 400 horas. A Polícia pediu 90 dias para finalizar a perícia.
Ainda segundo o ofício, a corporação recebeu exclusivamente imagens captadas pelas câmeras instaladas nas fardas de policiais da Core (Coordenadoria de Recursos Especiais) e de outras unidades da Polícia Civil. O órgão federal não teve acesso às gravações do Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais), unidade da Polícia Militar que mobilizou o maior contingente de agentes durante a operação.
Andrei Rodrigues destacou que o prosseguimento da investigação está condicionado ao envio do material pendente. A conclusão da perícia e sua anexação ao processo que tramita no STF dependem do recebimento das imagens faltantes.
Esta não é a 1ª vez que a PF tem dificuldades em acessar os vídeos da operação. Em fevereiro deste ano, a Polícia afirmou não conseguir baixar e, consequentemente, realizar a perícia dos 945 arquivos enviados pela Polícia Civil do Rio de Janeiro.
O diretor-substituto da PF, William Marcel Murad, pediu que a Polícia Civil do RJ enviasse o material em mídia física. Afirmou também que seria necessário receber o aplicativo, software correspondente aos arquivos, caso eles sejam proprietários e não reprodutíveis em players comerciais. Ainda solicitou a Moraes uma extensão de tal prazo, considerando o “grande volume indicado de arquivos”.
A megaoperação Contenção foi deflagrada em 28 de outubro de 2025 nos complexos do Alemão e da Penha, áreas densamente povoadas da zona norte da capital fluminense. As regiões são historicamente marcadas por confrontos entre forças de segurança e grupos criminosos.
A ação mirou a facção CV (Comando Vermelho). Ao todo, morreram 122 pessoas, incluindo 5 policiais. É considerada a operação mais letal do país, ultrapassando o número de mortos registrados na operação Carandiru, em 1992.
Em abril de 2025, o STF estabeleceu critérios para diminuir a letalidade policial na capital fluminense. O conjunto de regras foi definido no julgamento da ADPF das Favelas.
A ação foi protocolada pelo PSB em 2019, sob o argumento de que a segurança pública do Rio viola princípios constitucionais e direitos fundamentais, como dignidade da pessoa humana, vida e segurança.
A Corte havia estabelecido o seguinte para o Estado do Rio de Janeiro:
Os magistrados, em voto conjunto, reconheceram a violação de direitos humanos por parte das organizações criminosas que, segundo eles, “se apossam de territórios e cerceiam direitos de locomoção da população e das forças de segurança”.
Após a megaoperação do dia 28 de outubro, entidades como o Ministério Público Federal e a DPU (Defensoria Pública da União) questionaram o então governador Cláudio Castro (PL) sobre o cumprimento das determinações da Corte.





