"Ali, sentiram a minha dor. Muita gente [me] crucificou, mas outras me ligaram, se comoveram. A foto foi de um sentimento muito real", avaliou.
Fernanda da Silva Martins durante entrevista à Agência Brasil, no Complexo da Penha, na zona norte do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
"Não importa se acharam que eu era mãe dele. Eu perdi o amor da minha vida, pai dos meus filhos, o homem que me deu esperança". Ao relembrar o momento, ela se entristece com o estado do corpo do qual se despediu. Ela conta que seu marido era membro da facção, mas o cadáver tinha sinais que iam além do que era esperado em uma troca de tiros."Ele não morreu [só] de tiro. Ele levou facada no braço e teve o pescoço quebrado. O tiro de misericórdia deram depois, nas costas", revelou. "Mas eu não recorri a nada nem a ninguém, não tenho apoio."
Depressão e fome
Desde que perdeu o companheiro com quem estava há 14 anos, Fernanda conta que o primeiro desafio diário é sempre acordar. Fernanda sofre com depressão e síndrome do pânico e chegou a ficar internada após uma tentativa de suicídio desde que ficou viúva. "Eu saí do tamanho (manequim) 44 para o 36. Eu passo dias sem comer, choro, desmaio, tem sido difícil", disse. São seus dois filhos mais novos, Anna Clara, de 11 anos, e Ivan, de 8, que a mantêm de pé, desabafa. A filha mais velha, de 18 anos, mora com a avó, e segundo mais velho, de 15, com o pai. "Hoje, [juro] por Deus, levantei pela força da misericórdia. O menino não tinha o que comer. Ele me acordou: 'mamãe, tô com fome'. Tem dois dias que não durmo, vivo à base de remédios". O pouco que a família tem vem do Bolsa Família, mas, com duas crianças em casa, a comida acaba rápido. "Meu marido, antes, pagava tudo. Agora, a gente vive mais de miojo, porque eu não tenho mesmo". Para buscar o sustento da família, Fernanda conta que pesa o fato de ela terer apenas sete anos de estudo, com ensino fundamental incompleto, e nunca ter trabalhado de carteira assinada. "Mas eu já trabalhei. Eu olhava uma senhora idosa, trabalhei em lanchonete, trabalhei de diarista com minha mãe. Trabalhei no carnaval, vendendo cerveja. Este ano que não vou, não consigo ainda encarar o mundo, sabe?", justifica. "Eu também tive quatro filhos e cuidava sempre deles". Sem a merenda para os filhos durante as férias escolares, o dinheiro encurtou ainda mais e uma das soluções foi mandar Clara para a casa da avó paterna, em São João de Meriti, na Baixada Fluminense. O menino que ficou, Ivan, toma banho de barril para aliviar a sensação da última onda de calor na cidade e implora para ir à praia. "Ele pergunta: 'mãe, quanto é a passagem para eu ir?' Eu respondo: 'é caro, são quatro passagens, eu não tenho condição'".Dezenas de corpos na Praça São Lucas, na Penha, zona norte do Rio de Janeiro. Operação Contenção. Foto: Tomaz Silva /Agência Brasil
Relacionamento
Quando começou a se relacionar com Leonardo Fernandes da Rocha, morto na operação, ela conta que não sabia que ele integrava o grupo criminoso. Com o tempo, a família passou a depender dessa renda. "Eu trabalhava na padaria e ganhava um salário. Mas tudo era meu. Do portão para dentro, era tudo ele. Botava comida em casa, pagava as contas, tratava bem meus filhos mais velhos. Não faltava nada. Internet, comida, gás, roupas, era tudo ele, eu gastava comigo". A época mais difícil que passaram foi a do diagnóstico de câncer de Ivan, na época, com 3 anos. Fernanda conta que, juntos, ela e Leonardo tentaram traçar planos para ele, fora do crime, mas não conseguiram outra forma de garantir renda suficiente para a sobrevivência e o tratamento. "Meu marido queria ter saído dessa vida. Ele vendeu moto, vendeu o fuzil, queria vender a nossa casa para pagar o tratamento do Ivan, mas não dava. O médico falou assim para ele: o senhor pode vender até a sua alma, mas não vai dar [para custear o tratamento]. Então, ele foi ficando [no tráfico], e eu fui relevando [o tráfico e as traições]. Eu orava", lamentou. Depois de muita espera e até ações judiciais, ela conta que o caso finalmente foi encaminhado para o Instituto Nacional de Câncer (Inca), e uma cirurgia salvou a vida do filho. "Meu filho ficou meses internado. O Leonardo [o pai], apesar de dar os pulos dele, de me chamar de maluca, de doida, de surtada, porque eu ia atrás dele, ele me apoiava, pagava os remédios e, no dia da operação, chegou [ao hospital] em dez minutos", lembrou.Mulher chora diante de dezenas de corpos na Praça São Lucas, na Penha, zona norte do Rio de Janeiro, após Operação Contenção. Foto: Tomaz Silva /Agência Brasil
Apoio dos pais
Fernanda recebeu a reportagem na laje da casa dos pais. Com pés de maracujá, uma bananeira e perfumado por ervas, como manjericão e hortelã, o espaço é o mais fresco da casa, mantido pelo pai de Fernanda, Jocimar, um vendedor de 55 anos. "Aqui não tem passarinho, mas toda hora vem uma borboleta", brinca ela, enquanto procura se proteger do sol a pino. A casa dos pais dela é uma das mais simples da rua, conta. "A nossa casa é a mais pobre da rua porque, por muito tempo, meu pai foi dependente químico” "Não parava nada aqui dentro. Tudo ele vendia. Pegava crediário nas Casas Bahia e vendia móvel, televisão, telha... A minha [primeira] filha ia fazer um festão de um aninho. Aí, ele vendeu a roupa dela todinha, uma roupinha jeans e uma sandalinha gladiadora. Depois, eu creio, por causa dessa história, da minha filha, ele se arrependeu e parou". O episódio já tem quase 20 anos, e Fernanda há tempos perdoou. É o pai e a mãe dela, Sônia, uma diarista de 59 anos, que a socorrem quando falta comida na mesa.O aposentado, Jocimar Martins e sua filha, Fernanda da Silva Martins, durante entrevista à Agência Brasil, no Complexo da Penha, na zona norte do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
"Se não fosse pela minha família, eu não estaria mais aqui. E eles ajudam como podem". Sobre o futuro, Fernanda sonha em sair do Alemão.Ela também gostaria de montar um pequeno salão, "fazer manicure e pedicure". "Já fiz curso de cílios, sobrancelhas, tenho diploma, só falta botar em ação". Hoje, a preocupação é viver um dia após o outro e colocar comida na mesa enquanto duram as férias. Relacionadas"Queria dar uma vida melhor para os meus filhos. Não é que aqui seja ruim, mas queria que meus filhos avançassem, tivessem um futuro que eu não tive", disse.
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