A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro publicou no sábado (14.mar.2026) um vídeo em que Cris Mourão, uma apoiadora do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), afirma que jornalistas que estavam em frente ao hospital DF Star, em Brasília, fazendo a cobertura da internação do antigo chefe do Executivo, estariam desejando a morte dele.
Nas imagens não é possível ouvir nenhuma declaração dos jornalistas. Após o vídeo viralizar, 2 dos profissionais registraram um boletim de ocorrência cada por sofrerem intimidações. Um deles teve o filho ameaçado e o outro encerrou suas redes sociais. Um 3º privou seu Instagram e estaria estudando outras medidas contra o caso com sua defesa.
Nos stories do seu perfil oficial no Instagram, Michelle Bolsonaro publicou o material com o texto: “Jornalistas reunidos desejando a morte de Bolsonaro e comemorando por ser sexta-feira 13”.
Na gravação, a influenciadora grita com os repórteres e filma o crachá de uma assessora. “Isso é uma falta de vergonha”, afirma a mulher no vídeo. Os profissionais a ignoram.
Assista ao vídeo (2min10):
Jornalistas que apareciam nas imagens tiveram suas identidades compartilhadas e foram atacados. Duas repórteres foram reconhecidas na rua e no transporte público e sofreram ataques presenciais.
Também foram produzidas montagens e vídeos com uso de inteligência artificial, uma das produções simula que uma das profissionais é esfaqueada. Fotos de filhos e familiares dos jornalistas foram usadas como instrumento de intimidação e assédio. Deputados aliados ao antigo chefe do Executivo também compartilharam o vídeo.
Neste domingo (15.mar), a Cris Mourão públicou em seu perfil oficial no Instagram sobre o caso e escreveu: “Minha intenção nunca é prejudicar ninguém, mas sim defender com unhas e dentes quem luta pela nossa nação”. Ela deu parabéns a um dos jornalistas que aparecem no vídeo, que supostamente estaria defendendo o ex-presidente.
Segundo ela, um amigo do profissional teria entrado em contato com ela afirmando que o jornalista seria de direita e estaria falando sobre Bolsonaro estar internado em razão da facada que o antigo chefe do Executivo levou em 2018.

A Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) divulgou nota repudiando o vídeo e seu compartilhamento. A entidade condena “veementemente” as ameaças, a difamação e a exposição violenta de jornalistas e seus familiares após a divulgação “irresponsável de um vídeo deturpado” na cobertura da internação do ex-presidente.
A associação afirmou que o vídeo foi compartilhado sem “qualquer verificação” e que estaria “disseminando mentiras e expondo profissionais de imprensa que estavam simplesmente exercendo seu trabalho”. A Abraji classificou como “inadmissível” que parlamentares e figuras públicas utilizem sua influência para orquestrar campanhas de difamação e incitar agressões contra jornalistas.
A ABI (Associação Brasileira de Imprensa) também se manifestou neste domingo sobre o caso: “Causa indignação a atitude da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que compartilhou em suas redes sociais um vídeo com ataques a jornalistas”.
A Fenaj (Federação Nacional de Jornalistas) e o SJPDF (Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal) soltaram nota conjunta no sábado declarando ser “inadmissível que jornalistas, no pleno exercício de sua atividade profissional, sejam cercados e hostilizados na portaria de uma unidade de saúde”.
As 3 notas criticam o fato de o vídeo ter sido compartilhado por deputados.
Leia a nota completa da Abraji:
“A Abraji repudia veementemente as ameaças, a difamação e a exposição violenta de jornalistas e seus familiares ocorridas após a divulgação irresponsável de um vídeo deturpado durante a cobertura da internação do ex-presidente Jair Bolsonaro, na sexta-feira (13), no hospital DF Star, em Brasília.
O vídeo, produzido por uma influenciadora bolsonarista, foi amplificado por parlamentares da extrema direita e pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que o compartilharam sem qualquer verificação, disseminando mentiras e expondo profissionais de imprensa que estavam simplesmente exercendo seu trabalho.
A partir dessa campanha de desinformação, jornalistas que apareciam nas imagens passaram a ser identificados e atacados nas redes sociais. As agressões não ficaram restritas ao ambiente digital: duas repórteres foram reconhecidas na rua e no transporte público e sofreram ataques presenciais. Foram produzidas montagens e feitos vídeos com uso de inteligência artificial, inclusive simulando que uma das profissionais é esfaqueada. Além disso, fotos de filhos e familiares dos jornalistas estão sendo usadas como instrumento de intimidação e assédio.
É inadmissível que parlamentares e figuras com espaço no debate público utilizem sua influência para orquestrar campanhas de difamação e incitar agressões contra profissionais de imprensa. Esse tipo de ataque não é apenas uma ameaça individual — é um ataque direto à liberdade de imprensa e à democracia.”
Leia a nota completa da ABI:
“A Associação Brasileira de Imprensa repudia as manifestações de hostilidade e ódio dirigidas a jornalistas que realizam a cobertura da internação do ex-presidente Jair Bolsonaro, nos últimos dias, em Brasília.
Profissionais de imprensa que cumprem seu dever de informar a sociedade têm sido alvo de ataques verbais e intimidações por parte de apoiadores do ex-presidente, em um ambiente de crescente hostilidade contra o trabalho jornalístico.
Causa indignação a atitude da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que compartilhou em suas redes sociais um vídeo com ataques a jornalistas. O material, produzido por uma influenciadora bolsonarista e amplificado por parlamentares da extrema direita, foi difundido sem qualquer verificação, disseminando desinformação e expondo profissionais que apenas exerciam seu trabalho.
A partir dessa campanha, jornalistas que aparecem nas imagens passaram a ser identificados e atacados nas redes sociais. As agressões ultrapassaram o ambiente digital: repórteres foram reconhecidas na rua e no transporte público e sofreram ataques presenciais. Também circularam montagens e vídeos com uso de Inteligência Artificial simulando violência contra profissionais, além da exposição de fotos de filhos e familiares como forma de intimidação.
É inadmissível que figuras públicas utilizem sua influência para difundir conteúdo falso ou estimular campanhas de difamação contra jornalistas. Esse tipo de prática não ameaça apenas indivíduos, mas representa um ataque direto à liberdade de imprensa e ao direito da sociedade à informação.
O episódio remete ao período de 2019 a 2022, em que a violência contra jornalistas foi praticada e estimulada diretamente pelo próprio Bolsonaro, então presidente da República, por meio de diversos episódios de triste memória. Foram diversas as ocasiões em que entrevistas coletivas na Presidência da República se tornavam espaços para ataques aos profissionais de imprensa no ‘cercadinho’ sob o comando de Bolsonaro e apoiadores.
Manifestamos solidariedade aos profissionais que estão em serviço e reiteramos a defesa incondicional do respeito à atividade jornalística e à liberdade de imprensa.”
Leia a nota completa da FENAJ e da SJPDF:
“Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SJPDF) e a Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ) vêm a público manifestar seu mais profundo repúdio aos graves episódios de hostilidade, violência e intimidação sofridos por profissionais de imprensa que realizam a cobertura da internação do ex-presidente Jair Bolsonaro, nesta sexta-feira (13), no hospital DF Star, em Brasília.
É inadmissível que jornalistas, no pleno exercício de sua atividade profissional, sejam cercados e hostilizados na portaria de uma unidade de saúde. Mais grave ainda é o fato de que a violência física e verbal no local tenha sido amplificada por ataques virtuais coordenados. As ofensas e ameaças se intensificaram após o deputado federal Mario Frias (PL-SP) publicar um vídeo, posteriormente apagado, expondo os profissionais e alegando, sem qualquer prova nas imagens, que estes estariam ‘desejando a morte’do ex-presidente.
Essa exposição irresponsável resultou no vazamento de informações pessoais dos repórteres, que passaram a receber centenas de mensagens ofensivas e ameaças de morte em suas redes sociais. Esse tipo de conduta, frequentemente incentivada por setores da extrema direita, visa não apenas intimidar o profissional individualmente, mas fragilizar o livre exercício do jornalismo e o direito da sociedade à informação.
Diante da gravidade dos fatos, cobramos proteção imediata aos e às jornalistas. Lembramos que é dever do Estado garantir a segurança dos profissionais em locais públicos e de interesse jornalístico. O sindicato encaminhará pedido solicitando a atuação da Polícia Militar no local, assegurando a proteção dos profissionais de imprensa, considerando que viaturas da PMDF já realizam a escolta e segurança no entorno do hospital para o ex-presidente. Exigimos que essa força policial também atue na proteção dos jornalistas, impedindo cerceamentos e agressões por parte de militantes.
Ressaltamos ainda que é fundamental a apuração rigorosa das ameaças para que episódios como esse não se repitam. Pedimos às autoridades policiais e ao Ministério Público que identifiquem e punam os autores das ameaças virtuais e os responsáveis pela exposição indevida de dados dos profissionais.
Cobramos também das empresas de jornalismo que proporcionem condições seguras de trabalho para seus e suas profissionais, tomando as providências cabíveis. E, ainda, que ofereçam apoio jurídico aos e às jornalistas e garantam o afastamento do local da cobertura caso as e os jornalistas não se sintam seguros para exercer seus trabalhos.
Reafirmamos que a liberdade de imprensa é um pilar fundamental da democracia. O jornalismo é essencial para levar fatos ao conhecimento público, e não pode ser cerceado por métodos de coação física ou psicológica. Não aceitaremos a intimidação como método político.
Prestamos nossa total solidariedade aos colegas atingidos e informamos que o Sindicato e seu departamento jurídico estão à disposição para oferecer todo o suporte necessário.”





