• Sexta-feira, 20 de março de 2026

Incêndio em Hong Kong que matou 168 pessoas foi causado por cigarro

Investigação diz que empreiteira comprou material não resistente ao fogo pois faltavam 5 meses para concluir reforma.

Uma bituca de cigarro descartada por um operário da construção civil foi provavelmente a causa do incêndio de grandes proporções no complexo residencial Wang Fuk Court, em Hong Kong, em novembro de 2025, que matou 168 pessoas, afirmou uma comissão independente de inquérito em sua 1ª audiência na 5ª feira (19.mar.2026).

O advogado Victor Dawes, principal representante da comissão independente, disse que as evidências indicam que o incêndio começou quando um cigarro aceso caiu sobre detritos inflamáveis ​​amontoados em um poço de luz, provocando um dos incêndios mais mortais da história da cidade.

O incêndio, que começou na tarde de 26 de novembro de 2025, queimou por 43 horas e consumiu 7 das 8 torres residenciais do Wang Fuk Court, em Tai Po, que estava passando por grandes reformas. As vítimas tinham de 6 meses a 98 anos de idade.

O inquérito visa determinar a causa do incêndio e como ele se alastrou tão rapidamente, examinando possíveis falhas sistêmicas e lapsos no cumprimento das normas de segurança que permitiram que um momento de negligência se transformasse em uma catástrofe. As conclusões da investigação podem levar a regulamentações mais rigorosas em canteiros de obras e possíveis processos judiciais.

A investigação mostrou que o incêndio provavelmente começou de 14h33 a 14h43 em um poço de luz no 1º andar do Edifício Wang Cheong, um bloco de 32 andares dentro do conjunto habitacional público.

Os investigadores encontraram caixas de papelão carbonizadas, latas de bebidas e bitucas de cigarro na área, que os trabalhadores utilizavam como espaço de descanso.

Imagens de câmeras de segurança registraram um trabalhador perguntando: “Quem fumou aqui e ateou fogo em alguma coisa?” às 14h42, enquanto outras imagens confirmaram que havia fumo no local.

Outras possíveis causas, incluindo curtos-circuitos, vazamentos de gás e faíscas de solda, foram descartadas por falta de evidências, segundo Dawes.

A investigação constatou que a proibição de fumar durante o projeto de reforma, que durou 18 meses, foi amplamente ignorada. Moradores relataram repetidamente que trabalhadores fumavam nos andaimes e apresentaram queixas ao Departamento do Trabalho e à unidade de investigação independente do Departamento de Habitação, por vezes fornecendo provas em vídeo, mas nenhuma providência foi tomada.

Um fator crucial na rápida propagação do incêndio foi o uso de redes de andaime não resistentes ao fogo, afirmou Dawes. A empreiteira reconheceu que a rede não era resistente ao fogo.

Combinado com a baixa umidade e um alerta vermelho de perigo de incêndio, o material permitiu que as chamas subissem rapidamente pela fachada do edifício e se espalhassem para as torres vizinhas. Outros materiais de reforma inflamáveis, incluindo lonas e placas de espuma, também alimentaram o fogo.

Aparentemente, a empreiteira comprou conscientemente a rede mais barata e inflamável. Um representante de um fornecedor testemunhou que, depois de um lote inicial de redes resistentes ao fogo ter sido danificado por um tufão, a empreiteira encomendou substituições por redes padrão, não resistentes às chamas.

A diferença de preço foi de HK$ 30 (US$ 3,8) por rolo, representando uma economia total de cerca de HK$ 69.000 em um projeto de HK$ 330 milhões. Segundo depoimentos, um gerente de projeto afirmou que a tela de proteção mais barata foi escolhida porque o projeto estava a cerca de 5 meses da conclusão.

Uma pessoa de sobrenome Chan, responsável pela aquisição da tela de proteção para andaimes, disse ter informado à equipe de projeto da empreiteira que a tela de proteção externa precisava ser resistente ao fogo, mas foi informada de que a reforma do Wang Fuk Court estava a cerca de 5 meses da conclusão e que uma tela padrão seria suficiente.

A audiência também detalhou os momentos finais do bombeiro Ho Wai-ho, que morreu em serviço. Ho, de 37 anos, estava entre os primeiros a responder e foi designado para uma missão de resgate com 2 colegas no 27º andar do Edifício Wang Cheong. Imagens mostraram que Ho pareceu ficar desorientado em meio à densa fumaça e entrou no Edifício Wang Tai, adjacente ao prédio.

Sete minutos depois de ser visto pela última vez pelas câmeras, Ho emitiu um pedido de socorro dizendo que estava preso no 30º andar, mas não conseguia identificar em qual prédio estava. Ele foi encontrado posteriormente sem sinais vitais no chão, do lado de fora do Edifício Wang Tai. A autópsia indicou inalação de monóxido de carbono, juntamente com múltiplas queimaduras e fraturas, como a causa da morte.

Os investigadores acreditam que Ho pode ter subido até o 31º andar em busca de uma rota de fuga, removido seu aparelho respiratório para se movimentar com mais liberdade e caído ao tentar quebrar uma janela.

Esta reportagem foi originalmente publicada em inglês pela Caixin Global em 20.mar.2026. Foi traduzida e republicada pelo Poder360 sob acordo mútuo de compartilhamento de conteúdo.

Por: Poder360

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