• Domingo, 15 de março de 2026

Governo atrasa edital para compra do supercomputador

Projeto é a principal infraestrutura do programa e sustentará nuvem estatal para dados do SUS e da Petrobras. Leia mais no Poder360.

O MCTI (Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação) adiou o lançamento do edital para a compra do novo supercomputador nacional, peça central do PBIA (Plano Brasileiro de Inteligência Artificial), para o fim de março ou início de abril de 2026. A equipe técnica estimava iniciar o processo em outubro de 2025, mas o cronograma foi revisto por causa de problemas logísticos.

Um dos principais fatores do adiamento foi a definição do local de instalação da máquina. O governo descartou o LNCC (Laboratório Nacional de Computação Científica), em Petrópolis, no Rio de Janeiro, por causa do alto custo de energia e das limitações da infraestrutura elétrica.

O prédio precisa suportar uma carga por centímetro quadrado muito grande. Não é qualquer data center que pode hospedar um equipamento dessa natureza”, afirmou o secretário de Ciência e Tecnologia para Transformação Digital do MCTI, Henrique Miguel.

Atualmente, o principal local em análise para a instalação é um data center da Telebras, em Brasília, por possuir infraestrutura elétrica mais robusta e estar localizado em terreno da União.

Ainda sem nome definido, o supercomputador é considerado a principal infraestrutura do PBIA, lançado em 2024. O objetivo do projeto é ampliar a capacidade nacional em inteligência artificial, com investimentos em pesquisa acadêmica, infraestrutura computacional, formação de profissionais e desenvolvimento de aplicações.

O investimento total previsto para o PBIA é de cerca de R$ 23 bilhões até 2028. Só com o supercomputador, o gasto será de R$ 1,8 bilhão.

Hoje, o principal supercomputador científico do país é o Santos Dumont, que opera no LNCC, em Petrópolis. A infraestrutura é usada por universidades e centros de pesquisa para simulações complexas, como previsão climática, estudos de energia e modelagem biológica. O novo supercomputador previsto no plano deve ampliar essa capacidade.

Com um sistema mais potente, tarefas que demandam dias de processamento, como o treinamento de modelos de inteligência artificial domésticos, poderão ser realizadas em menos tempo. Ao ampliar essa capacidade, o governo espera colocar o Brasil entre os 5 países com maior capacidade de supercomputação até 2028.

Além da pesquisa acadêmica, o supercomputador será a base de uma “nuvem governamental” para processar dados sensíveis de órgãos como o Sistema Único de Saúde e a Petrobras em infraestrutura própria, evitando a dependência de nuvens estrangeiras e garantindo que o Estado mantenha controle total sobre suas informações estratégicas.

Sem capacidade própria, o caminho é a dependência tecnológica e comercial. Ou você desenvolve sua infraestrutura ou fica totalmente refém de quem controla essas plataformas”, disse Miguel.

Além disso, o secretário projeta que essa independência gere uma economia significativa. “A expectativa é que a gente tenha uma redução nos contratos entre 20% e 80% do custo da nuvem”, afirmou.

Enquanto o Santos Dumont opera cerca de 19 quatrilhões de cálculos por segundo, o objetivo do novo sistema é alcançar os supercomputadores mais avançados do mundo, como o El Capitan e o Frontier, ambos dos Estados Unidos, capazes de realizar mais de 1 quintilhão de cálculos por segundo.

Supercomputadores dessa escala exigem centros de dados de grande porte, alto consumo de energia e sistemas avançados de refrigeração e conectividade. O novo sistema deverá consumir cerca de 20 MW (megawatts) e ocupar uma área aproximada de 5.000 m².

Além disso, do ponto de vista do investimento, o Santos Dumont custou cerca de R$ 60 milhões em sua implantação original —valor muito inferior ao investimento de R$ 1,8 bilhão previsto para a nova máquina.

Para reduzir riscos tecnológicos e financeiros, o MCTI decidiu que a compra não será feita de uma só vez, mas dividida em etapas. Até o momento, aproximadamente R$ 200 milhões já foram aplicados na fase inicial de infraestrutura básica e projetos de engenharia.

A máquina deve ter seu conjunto inicial instalado provisoriamente em um contêiner. Essa estratégia permite que grandes fabricantes como Lenovo, Dell, HP ou Huawei participem da montagem utilizando aceleradores (GPUs) de ponta.

Enquanto o supercomputador principal não é instalado, o PBIA prevê a ampliação da rede nacional de supercomputação. Nos últimos meses, a Universidade de São Paulo e a Universidade Estadual de Campinas anunciaram a aquisição de sistemas menores com GPUs voltados para aplicações em inteligência artificial.

Apesar do atraso, o governo mantém a meta de posicionar o Brasil entre os 5 países com maior capacidade de supercomputação até 2028. Com o plano terminando em 2028, em meio a uma possível transição de governo, Henrique Miguel acredita que a natureza estratégica dos projetos garantirá sua continuidade. “São bons projetos e eles fazem sentido. É inevitável a Petrobras evoluir seus sistemas para usar IA, por exemplo. Isso é uma questão de soberania”, concluiu.

Por: Poder360

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