A guerra que envolve Estados Unidos, Israel e Irã não se limita a confrontos diretos entre forças regulares. O conflito se estende por meio de uma complexa rede de milícias xiitas que Teerã construiu ao longo de décadas no Oriente Médio.
Mesmo que o regime iraniano enfraqueça ou caia, essa arquitetura de grupos armados tende a sobreviver —e com ela, os riscos para a segurança global e o comércio internacional.
O chamado “eixo da resistência” reúne milícias alinhadas ao Irã em pelo menos quatro países. No Iêmen, os houthis retomaram ataques contra navios comerciais no mar Vermelho, forçando empresas de transporte a desviar rotas pela África, o que encarece fretes e pressiona preços de produtos importados na Europa, Ásia e América Latina.
No Líbano, o Hezbollah mantém um arsenal estimado em mais de 150 mil foguetes e mísseis, além de forte presença política e militar.
No Iraque, facções das Forças de Mobilização Popular (Hashd al-Shaabi) controlam áreas estratégicas e realizam ataques contra bases onde operam militares norte-americanos.
Já na Síria, depois da queda do regime de Bashar al-Assad em dezembro de 2024, grupos armados pró-iranianos continuam presentes em partes do território e buscam preservar corredores logísticos e influência regional em meio à transição política do país. Essa rede envolve estruturas políticas, financeiras e sociais que penetram profundamente nas sociedades locais, oferecendo serviços públicos onde Estados falharam.
A história recente mostra que grupos armados não estatais frequentemente sobrevivem à queda de seus patrocinadores. O Talibã retornou ao poder no Afeganistão mesmo depois de décadas de pressão internacional. Na Somália, Al-Shabaab mantém controle territorial apesar de ofensivas regionais.
As milícias pró-iranianas possuem vantagens adicionais por estarem integradas a estruturas estatais. No Iraque, por exemplo, facções do Hashd al-Shaabi fazem parte oficialmente das forças de segurança desde 2016. No Líbano, o Hezbollah tem representação parlamentar e controla ministérios.
Elas desenvolveram fontes de financiamento próprias, como o controle de portos, fronteiras, rotas de contrabando, taxação de comunidades locais e atividades econômicas legais e ilegais. Não dependem só de Teerã para sobreviver e ainda respondem a dinâmicas locais.
Os houthis, por exemplo, combatem adversários regionais —especialmente a Arábia Saudita —por razões que vão além da agenda iraniana, como o controle territorial. Já o Hezbollah se fortaleceu como resposta à ocupação israelense do sul do Líbano nos anos 1980 e mantém legitimidade entre parcela significativa da população xiita libanesa.
Os efeitos dessa guerra ultrapassam as fronteiras do Oriente Médio. Ataques a navios no mar Vermelho já forçaram aumento de até 300% nos custos de seguro marítimo para certas rotas. Empresas que dependem de importações enfrentam atrasos e custos maiores, pressionando a inflação em economias distantes do conflito.
As rotas energéticas também estão em risco. O estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo consumido mundialmente, permanece vulnerável a bloqueios ou ataques de milícias. Qualquer interrupção prolongada pode afetar gravemente os preços dos combustíveis e da energia a nível global.
As redes financeiras e logísticas associadas a esses grupos operam em vários continentes. Investigações da Europol e do Departamento do Tesouro dos EUA identificaram conexões com lavagem de dinheiro, tráfico de armas e narcotráfico que chegam à Europa, América Latina e África.
A guerra com o Irã não terminará simplesmente com mudanças políticas em Teerã. A rede de milícias que o regime construiu ao longo de décadas adquiriu vida própria, enraizada em conflitos locais, estruturas estatais e economias paralelas. Enquanto persistirem as condições que permitiram seu surgimento –Estados frágeis, conflitos sectários, competição regional— esses grupos continuarão representando desafios para a segurança e o comércio globais, afetando desde preços de produtos importados até a estabilidade de rotas energéticas críticas para todo o mundo.
Com informações do The Conversation





