Contra a maré: quando taxação é taxação — e subsídio continua sendo subsídio
Em meio ao avanço do protecionismo global, produtor rural brasileiro enfrenta taxações e subsídios estrangeiros enquanto discursos seletivos e o silêncio institucional comprometem a competitividade e a soberania do agro nacional.
Em meio ao avanço do protecionismo global, produtor rural brasileiro enfrenta taxações e subsídios estrangeiros enquanto discursos seletivos e o silêncio institucional comprometem a competitividade e a soberania do agro nacional. Por Fernando Lopa – O debate internacional sobre comércio e protecionismo tem revelado um tratamento desigual quando o assunto envolve grandes potências econômicas. Quando os Estados Unidos anunciam taxações sobre produtos estrangeiros, a responsabilização costuma ser direta: a decisão é atribuída ao presidente Donald Trump. Já quando a China adota medidas semelhantes, como taxações, subsídios ou restrições sanitárias e ambientais temporárias, o discurso muda. Nesse caso, não se fala em Xi Jinping, no Partido Comunista ou em uma estratégia clara de Estado. A narrativa dominante trata as ações como decisões técnicas, neutras e racionais, atribuídas genericamente à “China”. O contraste chama atenção. A diferença também aparece no vocabulário adotado. Medidas norte-americanas são descritas como taxação, protecionismo ou retaliação. As ações chinesas, por sua vez, recebem rótulos mais suaves, como política industrial, estímulo ou organização de mercado. Em muitos casos, ainda há espaço para explicações que tentam justificar essas práticas como positivas, inclusive para países afetados. window._taboola = window._taboola || [];
_taboola.push({mode:'thumbnails-mid', container:'taboola-mid-article-thumbnails', placement:'Mid Article Thumbnails', target_type: 'mix'});No entanto, o conceito é simples e direto: taxação é taxação, subsídio é subsídio. Não importa se a medida vem de Washington, Pequim ou de qualquer outro lugar.A recente taxação chinesa sobre a produção de carne é um exemplo claro de política protecionista. A medida expõe, de forma evidente, os subsídios concedidos pelo governo de Xi Jinping ao produtor chinês. Ainda assim, a reação internacional foi discreta. Não houve indignação, alertas ou manchetes contundentes. O que se viu foi compreensão, relativização e um silêncio confortável. E o silêncio, nesse contexto, também representa uma escolha de lado.Quando os Estados Unidos anunciaram tarifas comerciais, setores da imprensa, do governo e até formadores de opinião ligados ao agronegócio reagiram com discursos inflamados, análises dramáticas e manchetes de tom quase apocalíptico. A reação foi intensa e imediata. Já diante dos subsídios chineses, que impactam diretamente a competitividade do produtor brasileiro, a resposta foi, no máximo, um leve chiado. Em muitos casos, nem isso. O mesmo ocorreu quando o México aplicou sobretaxações sobre produtos brasileiros. O barulho foi mínimo e rapidamente esquecido.
Enquanto isso, o produtor rural brasileiro segue enfrentando um cenário cada vez mais adverso. Ele é entregue, de cabeça baixa, às chamadas “forças de mercado”, lidando com custos elevados, crédito caro, insegurança jurídica, logística precária, clima imprevisível e um mundo cada vez mais protecionista. O aspecto mais grave dessa realidade é que tudo isso acontece com o respaldo, ou ao menos a omissão, de grande parte daqueles que deveriam defender o setor. Há uma crença quase ingênua entre governantes, formadores de opinião e até lideranças expressivas do agronegócio de que o Brasil liderará uma espécie de cruzada moral pela paz no comércio internacional agropecuário e pela salvação ambiental do planeta. A ideia pressupõe que grandes potências geopolíticas abririam mão de seus interesses nacionais em nome de um ideal abstrato. A história, no entanto, mostra que ser “mais realista que o rei” nunca protegeu produtor nenhum.
O mundo mudou. O comércio mudou.A geopolítica dos alimentos mudou. Quem subsidia, subsidia para ganhar mercado. Quem taxa, taxa para proteger o seu. E quem não reage, acaba pagando a conta.
Diante desse cenário, o alerta é claro: está na hora de acordar. Defender o produtor brasileiro não significa ser contra este ou aquele país. Significa ser a favor do Brasil, da soberania nacional e do reconhecimento do agronegócio como um ativo estratégico. Isso exige abandonar discursos seletivos, parar de relativizar práticas desleais e assumir posições firmes quando necessário.
O produtor rural não precisa de aplausos. Precisa de posicionamento, de defesa concreta e de pessoas dispostas a reagir com firmeza, independentemente de quem esteja do outro lado da mesa.
Por: Redação





