• Quarta-feira, 8 de abril de 2026

Cigarrinha-do-milho causa prejuízo de US$ 25,8 bilhões ao Brasil

Estudo inédito revela que doenças transmitidas pelo inseto dizimam mais de 20% da safra anual e consolidam como o maior desafio sanitário da cultura no país

O que antes era um problema secundário tornou-se uma crise econômica de grandes proporções. Um estudo conduzido pela Embrapa Cerrados, Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) e Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), publicado na revista internacional Crop Protection, quantificou o rastro de destruição deixado pela cigarrinha-do-milho (Dalbulus maidis). Entre 2020 e 2024, o Brasil acumulou perdas de US$ 25,8 bilhões (cerca de R$ 130 bilhões) devido ao complexo de enfezamentos.

O montante é resultado de aproximadamente 2 bilhões de sacas de milho que deixaram de ser colhidas no período. Em média, o país perdeu 22,7% de sua produção anual, o equivalente a um prejuízo de US$ 6,5 bilhões a cada safra.

O Brasil é o terceiro maior produtor mundial do grão e um dos principais exportadores. A pesquisa cruzou dados históricos da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) com levantamentos de campo em 34 municípios estratégicos. Os números mostram uma pressão crescente sobre o bolso do produtor:

Embora os patógenos (os enfezamentos pálido e vermelho) sejam conhecidos desde a década de 70, os surtos tornaram-se frequentes a partir de 2015. Segundo Charles Oliveira, pesquisador da Embrapa Cerrados, a mudança no sistema de produção foi o gatilho: a expansão da safrinha (ou 2ª safra, realizada após a colheita da soja) e o cultivo de milho durante quase todo o ano criaram uma "ponte verde", permitindo que a cigarrinha e os microrganismos sobrevivam e se multipliquem sem interrupção.

"Estamos falando de perdas que impactam diretamente a renda do produtor, a estabilidade produtiva e a competitividade do país", alertou Tiago Pereira, assessor técnico da CNA.

A cigarrinha funciona como um vetor. Ao se alimentar de uma planta doente, ela absorve patógenos que atacam o sistema vascular do milho. Atualmente, os dois tipos de enfezamentos – o pálido (Spiroplasma kunkelii) e o vermelho (“Candidatus” Phytoplasma asteris) – são a maior ameaça fitossanitária à produção brasileira do grão. As duas doenças são causadas pela cigarrinha-do-milho, que também transmite os vírus do mosaico-estriado e da risca do milho.

De acordo com o pesquisador da Embrapa, o problema é agravado por não haver tratamento preventivo para essas doenças, que podem ocasionar a perda total, principalmente de lavouras cultivadas com híbridos suscetíveis.

Como o controle químico isolado tem se mostrado insuficiente e o inseto já apresenta resistência a alguns produtos, a pesquisa reforça que a solução reside no Manejo Integrado de Pragas (MIP). As recomendações essenciais incluem:

As consequências ultrapassam a porteira. O milho é o insumo base para a produção de proteína animal (carnes, ovos e leite) e biocombustíveis. Quando a safra quebra, os preços sobem em toda a cadeia, pressionando a inflação de alimentos e afetando a segurança alimentar.

Para Maria Cristina Canale, pesquisadora da Epagri, os dados são fundamentais para nortear o setor de seguro agrícola e políticas públicas que ajudem a mitigar os riscos de uma das culturas mais vitais para a economia brasileira.

Por: Redação

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