• Sexta-feira, 24 de abril de 2026

Café feito com fezes de jacu pode custar mais de R$ 1.500 o quilo e surpreende o mercado; conheça

Produzido de forma artesanal no Espírito Santo, o café feito com fezes de jacu, o chamado “Café do Jacu”, transforma uma antiga praga da lavoura em um dos produtos mais caros e exclusivos do mundo

O que antes era motivo de preocupação para produtores de café no Brasil se transformou, ao longo dos anos, em um dos produtos mais curiosos — e lucrativos — do mercado de cafés especiais. O chamado “Café do Jacu”, produzido a partir de grãos coletados das fezes da ave, pode ultrapassar R$ 1.500 por quilo, colocando-se entre os mais caros do mundo e chamando atenção de consumidores e especialistas do setor.

A prática ocorre principalmente na Fazenda Camocim, no Espírito Santo, onde a presença do jacu, inicialmente vista como prejuízo à lavoura, passou a ser aproveitada como diferencial produtivo. Hoje, o produto é resultado de um processo altamente artesanal, que envolve desde a coleta manual dos grãos até técnicas específicas de conservação e torrefação.

De praga a oportunidade: como surgiu o Café do Jacu

Há cerca de duas décadas, produtores passaram a observar que o jacu — uma ave nativa de grande porte — se alimentava dos frutos do café. A princípio, o impacto foi negativo, com perdas na produção. No entanto, a partir de 2008, a fazenda Camocim decidiu estudar o fenômeno e encontrou uma oportunidade de inovação.

Segundo o produtor Henrique Sloper, a ideia foi inspirada em um produto já conhecido no mercado internacional: o Kopi Luwak, café da Indonésia produzido a partir das fezes da civeta. A partir disso, nasceu o Jacu Bird Coffee, um café orgânico e biodinâmico que hoje ganha destaque no mercado global.

Processo manual e rigoroso explica o alto valor

O que torna o Café do Jacu tão caro não é apenas sua origem exótica, mas principalmente o processo de produção. Após ingerir os frutos, o jacu elimina os grãos praticamente intactos cerca de 40 minutos depois. A partir daí, começa uma cadeia produtiva totalmente manual:

  • Coleta manual dos grãos diretamente nas fezes
  • Separação e limpeza cuidadosa
  • Secagem em estufa
  • Armazenamento em câmara fria por até um mês
  • Processo de congelamento a -25°C
  • Seleção por tamanho, cor e qualidade
  • Torrefação e moagem final
  • Segundo o produtor, “não existe máquina para processar resíduos de pássaros”, o que torna toda a operação mais cara e limitada.

    Preço supera até cafés premiados no Brasil

    O valor do Café do Jacu impressiona até mesmo dentro do segmento de cafés especiais. Enquanto:

  • A saca de café arábica tradicional (60 kg) gira entre R$ 1.700 e R$ 1.900
  • Cafés especiais premiados chegam a cerca de R$ 250 por quilo
  • O Café do Jacu pode atingir R$ 1.530 por quilo no Brasil — ou seja, até seis vezes mais caro que cafés especiais premiados.

    No mercado internacional, o valor é ainda mais elevado: na Inglaterra, o produto pode chegar ao equivalente a R$ 9.000 por quilo, reforçando seu caráter de item de luxo.

    Produção limitada e mercado global

    Apesar da repercussão, a produção é extremamente restrita. A fazenda Camocim produz cerca de:

  • 3 toneladas por safra de Café do Jacu
  • Dentro de um total de 230 toneladas de café convencional
  • Mesmo com o volume reduzido, o produto já é exportado para países como Japão, França e Inglaterra, além de começar a conquistar consumidores brasileiros.

    Função ecológica e impacto na agricultura regenerativa

    Além do valor comercial, o jacu desempenha um papel importante dentro do sistema produtivo. Segundo o produtor, a ave atua em três funções essenciais:

  • Indicador de maturação: consome apenas os melhores frutos
  • Selecionador natural: prioriza grãos de maior qualidade
  • Dispersor de sementes: contribui para a regeneração ambiental
  • Esse comportamento reforça a relação do café com práticas de agricultura regenerativa, valorizadas no mercado internacional.

    Características únicas do café de jacu

    O Café do Jacu também apresenta particularidades sensoriais. Uma das principais é o baixo teor de cafeína, já que o pássaro absorve cerca de 70% da substância durante a digestão.

    Apesar disso, o produto não costuma participar de competições tradicionais de cafés especiais, justamente por seu caráter exótico e custo elevado de produção.

    Um nicho que transforma curiosidade em alto valor agregado

    O Café do Jacu mostra como inovação, sustentabilidade e exclusividade podem transformar um problema em oportunidade no agronegócio. Mais do que um produto curioso, ele representa uma tendência crescente no mercado: a valorização de processos únicos, histórias autênticas e práticas sustentáveis na cadeia do café.

    Em um cenário onde o Brasil lidera a produção mundial, iniciativas como essa reforçam o potencial do país não apenas em volume, mas também em criação de valor dentro dos cafés especiais.

    Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias.

    Por: Redação

    Artigos Relacionados: