Vitoriano Veloso, distrito de Prados chamado de Bichinho, é um celeiro do empreendedorismo de artesanato sustentável. Nesse bucólico lugarejo, pedras são transformadas em esculturas, pedaços de madeira em móveis e retalhos de pano em roupas de cama, mesa e banho. A costureira Carmem Maria Teixeira de Paula, 70 anos, pode ser considerada a primeira empreendedora do distrito, cercado pela beleza da Serra de São José, no Campo das Vertentes.
Há 45 anos, ela começou a fazer roupas de cama, mesa e banho de fuxico (técnica artesanal que reaproveita retalhos de tecido) e atualmente gera mais de 50 empregos indiretos, ajudando mães que não podem deixar os filhos sozinhos em casa para trabalhar. O trabalho terceirizado ameniza um problema enfrentado por muitas empreendedoras:
“O maior desafio hoje é a mão de obra. Mas na nossa parte aqui do Fuxico, tem mães que, às vezes, não podem vir para o emprego, mas podem fazer de casa. Por exemplo, a mãe tem uma criança pequena, não pode sair. Então, a gente corta mil fuxicos para uma, mil fuxicos para a outra, e aí elas podem fazer de casa. A menina que faz o crochê também não precisa estar na firma. A gente deve ter umas 50 ou 60 pessoas, incluindo todo mundo terceirizado. Isso ajuda muita mãe de família, graças a Deus”, disse Carmem ao receber a reportagem da Itatiaia com café coado na hora, pão de queijo e mingau de couve capaz de revigorar qualquer um.
A história de resiliência e sucesso de Carmem encerra a série especial da Itatiaia "O empreendedorismo feminino que cresce sem esquecer o social”. Dados do Sebrae apontam que mais de 40% dos pequenos negócios em Minas Gerais são liderados por mulheres, como Carmem, que trabalha em casa com os filhos Maycon, de 32 anos, e Patrícia, de 38. “É uma tradição que passa de geração para geração”, diz Carmem.
Os primeiros passos de Carmem no artesanato foram marcados por desafios geográficos e econômicos, em 1981. Sem transporte regular no vilarejo, a matéria-prima vinha de São João del-Rei após longas caminhadas. "A gente tinha que ir a pé para Tiradentes até pegar o ônibus para ir para São João para comprar o material. Depois, trazer até o Bichinho na cabeça, a pé", recordou a artesã.
Naquela época, o comércio como conhecemos hoje não existia; as transações eram baseadas na subsistência e na solidariedade entre vizinhos. "Antigamente ninguém podia comprar nada de ninguém, ninguém tinha dinheiro para nada. A gente trocava os bordados por outros serviços e até por galinha”, disse.
A transformação do negócio caseiro em um empreendimento de visibilidade ocorreu de forma espontânea. Enquanto trabalhava sentada no passeio da casa de sua mãe, Carmem atraiu a atenção de turistas e, posteriormente, de uma equipe de televisão. "Apareceu uma emissora aqui no Bichinho para filmar a minissérie Memorial de Maria Moura, da TV Globo. Eles ficaram interessados pela colcha e, inclusive, me pagaram até além do que eu estava vendendo. Foi o pontapé inicial de que eu precisava", contou.
A partir desse momento, a logística melhorou e o vilarejo passou a ser frequentado por artistas e mais turistas. Carmem orgulha-se de ter fundado a Ponto é Nó, a primeira loja do Bichinho, cuja primeira placa foi feita de forma improvisada com madeira de telhado e escrita à mão em um pedaço de lata.
Carmem define o fuxico como algo que "a gente fez achando que era uma rosinha para fazer um bordado" e que evoluiu para um produto sofisticado que hoje alcança todo o Brasil e até o exterior, como Canadá, Alemanha e Portugal.
Viúva, Carmem lembra que o marido Miguel também ajudou a fazer as peças e observa com orgulho a continuidade de seu legado. Ela reconhece que a tecnologia facilitou a fabricação e as vendas, mas destaca que a essência do trabalho manual e a qualidade das peças — que incluem desde colchas trançadas a jogos americanos — permanecem as mesmas de 45 anos atrás.
Analista do Sebrae, Michelle Chalub destaca que a atuação de empreendedoras, como Carmem, tem cada vez mais importância no fortalecimento da economia.
“Quando uma mulher decide abrir ou expandir o seu negócio, ela não transforma apenas a própria realidade, mas movimenta toda uma rede de pessoas, gerando empregos diretos, empregos indiretos, criando oportunidades e fortalecendo o desenvolvimento local”, disse.
“O empreendedorismo promove inclusão e desenvolvimento. É comum, inclusive, ver mulheres contratando outras mulheres, incentivando fornecedores, apoiando realmente iniciativas que fortalecem todo o comércio da região, todo o desenvolvimento da comunidade. Por isso, é tão importante incentivar o empreendedorismo feminino”.
Michelle Chalub destaca o programa Sebrae Delas, criado em 2019 para apoiar o empreendedorismo feminino, seja por meio de capacitações, mentorias, orientações de negócio ou impulsionamento de redes de apoio. Quase 17 milhões de mulheres foram atendidas nos últimos cinco anos.





