• Sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

UFPR cria colágeno de jumento sem abate e mira mercado de US$ 700 milhões na China

UFPR busca investimento de US$ 2 milhões para escalar produção de colágeno de jumento em biorreatores e evitar que a demanda por ejiao continue acelerando o abate e o risco de extinção dos jumentos no Brasil

UFPR busca investimento de US$ 2 milhões para escalar produção de colágeno de jumento em biorreatores e evitar que a demanda por ejiao continue acelerando o abate e o risco de extinção dos jumentos no Brasil O colágeno de jumento, ingrediente tradicional usado na medicina chinesa e cada vez mais presente na indústria de beleza, está no centro de um mercado que movimenta cifras milionárias — e que coloca pressão direta sobre populações de animais em diferentes países. No Brasil, onde o número de jumentos caiu de forma drástica nas últimas décadas, uma pesquisa inédita da Universidade Federal do Paraná (UFPR) surge como alternativa capaz de mudar esse cenário. O projeto, conduzido pelo Laboratório de Zootecnia Celular da UFPR, aposta em uma tecnologia chamada fermentação de precisão, que permite produzir colágeno de jumento em laboratório sem abate, utilizando micro-organismos como “biofábricas”. Agora, para que o processo avance para uma escala mais próxima da indústria, os pesquisadores buscam US$ 2 milhões em investimento.
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  • A expectativa é que, até o final de 2026, a universidade consiga apresentar o processo produtivo em larga escala, testado em biorreatores, abrindo caminho para uma produção sustentável e com potencial de atender ao mercado internacional. window._taboola = window._taboola || []; _taboola.push({mode:'thumbnails-mid', container:'taboola-mid-article-thumbnails', placement:'Mid Article Thumbnails', target_type: 'mix'});Por que o colágeno de jumento virou alvo de um mercado bilionário Na China, o colágeno de jumento é a base do ejiao, uma gelatina extraída tradicionalmente da pele do animal e utilizada na medicina tradicional chinesa. Com o avanço do consumo e a ampliação de aplicações na indústria de bem-estar e cosméticos, a cadeia global passou a registrar aumento de demanda. As estimativas citadas no projeto apontam que somente o mercado de ejiao é avaliado em US$ 1,9 bilhão, com projeção de chegar a US$ 3,8 bilhões até 2032. Já o segmento ligado ao consumo e à beleza movimenta, segundo os dados apresentados, cerca de US$ 700 milhões por ano. Esse crescimento acelerado, porém, traz um efeito colateral: em muitos países, o abastecimento depende diretamente do abate, o que alimenta críticas sobre sustentabilidade, rastreabilidade e impacto ambiental. UFPR aposta em fermentação de precisão para produzir colágeno sem matar animais A solução em desenvolvimento no Paraná utiliza um processo semelhante ao que já existe em outras áreas da biotecnologia: micro-organismos são modificados geneticamente para produzir proteínas específicas, sem necessidade do animal vivo. No caso do colágeno de jumento, o passo a passo envolve:
  • identificação do DNA do jumento ligado à produção do colágeno
  • inserção dessa sequência em uma levedura
  • transformação da levedura em uma “biofábrica”
  • produção do colágeno em ambiente controlado
  • purificação do produto final para uso industrial
  • A coordenadora do Laboratório de Zootecnia Celular da UFPR, Carla Molento, explica que a fase atual é decisiva para transformar ciência em produto. “ Avançamos nas etapas mais complexas no estudo científico pautado na inovação. Agora, estamos prontos para inserir o DNA do colágeno em uma levedura, que funcionará como uma biofábrica, processo semelhante à produção de cerveja”, afirma a pesquisadora, PhD pela Universidade McGill (Canadá). Pesquisa entra na reta final e mira escala industrial até dezembro de 2026 Até o final de 2025, a pesquisa já havia completado as etapas iniciais no laboratório. Agora, o desafio é escalar: sair do ambiente controlado de bancada e avançar para condições compatíveis com a indústria. O investimento buscado deve viabilizar testes em:
  • biorreatores de 10 litros
  • biorreatores de 50 litros
  • infraestrutura robusta para escalonamento e validação do processo
  • A meta é apresentar até dezembro de 2026 a produção de miligramas de colágeno obtido integralmente por fermentação de precisão, provando que a tecnologia é viável para produção em larga escala. Apesar de o volume inicial ainda ser pequeno, os pesquisadores classificam os resultados como promissores. As três primeiras etapas já foram concluídas com sucesso: sequenciamento do DNA, amplificação e preparação do material genético. Comparação do DNA do jumento brasileiro pode ser chave para a fase comercial Além da produção em si, o projeto prevê comparar o material genético do jumento brasileiro com sequências internacionais, um detalhe técnico que pode ser decisivo para o futuro do produto. “ Queremos comparar o DNA do jumento brasileiro com sequências internacionais para garantir uma descrição precisa do produto. Isso é fundamental pensando na aplicação comercial em grande escala”, explica Molento. A padronização é considerada essencial para garantir rastreabilidade e facilitar negociações no mercado internacional. Por que os pesquisadores precisam de US$ 2 milhões agora A equipe afirma que, sem recursos para o escalonamento, o projeto corre o risco de ficar limitado à prova de conceito dentro da universidade, sem validação em condições próximas às exigidas pela indústria. “ Hoje trabalhamos com pequenas quantidades, em um ambiente de laboratório da universidade. Para aplicação industrial, precisamos de financiamento a fim de instalar biorreatores maiores e testar a produção em escala piloto”, reforça Molento. Segundo ela, o aporte pode vir tanto de fontes públicas quanto privadas, incluindo empresas interessadas no ingrediente, fundos de investimento ligados à bioeconomia e organizações nacionais ou internacionais. Produção em biorreatores pode ser mais eficiente do que fazendas de jumentos Um dos argumentos centrais do projeto é produtividade. A equipe aponta que produzir colágeno em laboratório pode ser mais eficiente do que o modelo tradicional, que depende de criação e abate. “ Do ponto de vista produtivo, é muito mais eficiente investir em fermentação de precisão do que em fazendas de jumentos. Em um galpão, com alguns biorreatores, é possível produzir uma quantidade muito maior de proteína, com menos insumos e sem o abate”, afirma a pesquisadora. Além disso, a tecnologia poderia futuramente ser aplicada para o desenvolvimento de outros ingredientes de origem animal, ampliando o impacto industrial. Colágeno produzido em laboratório pode ser altamente purificado e vendido para empresas Outro diferencial é que o colágeno obtido por fermentação de precisão tende a ser altamente purificado, o que facilita sua comercialização no modelo B2B (empresa para empresa), com o laboratório fornecendo o insumo para companhias que fabricam produtos finais. “A estratégia é vender o colágeno purificado para empresas que já produzem os produtos finais, seja na China ou em outros mercados”, afirma Molento. A queda de 94% na população de jumentos no Brasil acende alerta de extinção A pesquisa também destaca o risco de desaparecimento do jumento em território nacional. Dados de FAO, IBGE e Agrostat apontam que a população brasileira despencou 94% entre 1996 e 2024. A coordenadora de uma organização no Brasil, Patricia Tatemoto, PhD em Ciências com ênfase em Medicina Veterinária Preventiva e Saúde Animal pela USP, resume a gravidade do cenário: “ De cada 100 jumentos que existiam há 30 anos, hoje restam apenas seis”, afirma. Hoje, segundo estimativas citadas no projeto, o Brasil tem cerca de 78 mil jumentos, enquanto países como a Etiópia concentram a maior população do mundo, com mais de 10 milhões de animais. Modelo de abate é criticado por ser extrativista e concentrar benefícios Outra crítica apontada nos dados reunidos é que o abate ocorre de forma extrativista, com baixo retorno econômico local e concentração de ganhos. O levantamento aponta que a atividade beneficia principalmente dois abatedouros em funcionamento no interior da Bahia, sem geração significativa de desenvolvimento regional, e contraria estudos técnicos e científicos produzidos no Brasil. A iniciativa é financiada pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), por meio do Departamento de Proteção, Defesa e Direitos Animais (DPDA), e pela Fundação Araucária, SETI e Governo do Estado do Paraná. O projeto também tem parceria estratégica com a Universidade de Wageningen, na Holanda, referência mundial em biotecnologia aplicada à produção de proteínas alternativas. Um novo caminho para o Brasil: exportar tecnologia e salvar e evitar a extinção dos jumentos
    Por: Redação

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