A Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED), órgão vinculado à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), definiu nesta sexta-feira (17) o preço do lecanemabe, indicado para o tratamento da doença de Alzheimer em estágio inicial e do comprometimento cognitivo leve.
A doença recentemente acometeu Fernando Henrique Cardoso, o FHC, que atualmente tem 94 anos e convive com doença de Alzheimer em estágio avançado.
O custo mensal do tratamentom com aplicação endovenosa a cada 15 dias para um paciente com peso médio de 70 kg, será de R$ 8.108,94, sem considerar taxas e impostos. Com a incidência de uma alíquota de 18% (caso da maioria dos estados), o valor sobe para R$ 11.075,62.
Comercializado sob o nome Leqembi, o medicamento é produzido pela farmacêutica japonesa Eisai em parceria com a Biogen.
O lecanemabe é um anticorpo monoclonal direcionado à beta-amiloide, proteína que se acumula no cérebro de pessoas com Alzheimer anos antes do surgimento dos sintomas. Esse acúmulo progride ao longo do tempo e está ligado à evolução do processo patológico da doença. Evidências apontam que o medicamento desacelera a progressão do quadro, embora não reverta os sintomas.
Aprovado pela Anvisa em 22 de dezembro de 2025, o remédio deve começar a ser comercializado no Brasil no fim de junho.
Sua ação se concentra nas protofibrilas de beta-amiloide, consideradas a forma tóxica da proteína, que se acumulam no cérebro e levam à morte dos neurônios.
— O diferencial do medicamento é o duplo mecanismo de ação: remove as placas de beta-amiloide e neutraliza a cascata de neurotoxicidade que impulsiona a progressão da doença — afirma Tatiana Branco, diretora da área médica da Biogen no Brasil.
Segundo o neurologista Paulo Caramelli, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o estudo de fase 3 que avaliou eficácia e segurança do lecanemabe mostrou que pacientes com Alzheimer em estágio inicial — demência leve ou comprometimento cognitivo leve — tratados por 18 meses apresentaram, em média, redução de 27% na velocidade de progressão da doença em comparação ao grupo placebo.
— A magnitude desse efeito não é gigantesca. Alguns modelos matemáticos indicam que, ao longo de um ano e meio, é como se os pacientes tivessem ganho alguns meses durante o tratamento — explica Caramelli.
Entre os pontos de atenção estão os efeitos adversos, como edema e hemorragia cerebral. O maior risco está associado a pacientes com um tipo genético específico, a apolipoproteína E4.
— No Brasil, a meu ver corretamente, a Anvisa não aprovou o uso para esse subgrupo, já que o risco de efeitos colaterais é significativamente maior. Fora esse grupo, a probabilidade de eventos adversos varia entre 5% e 11% — afirma.
De acordo com o neurologista, alguns exames são necessários antes da prescrição, como a análise do genótipo da apolipoproteína E — que não é coberta pelo Sistema Único de Saúde (SUS), mas pode ser feita em laboratórios privados.
Também é exigida a realização de uma ressonância magnética até um ano antes do início do tratamento, para descartar lesões hemorrágicas ou alterações cerebrais que impeçam a terapia. O uso de anticoagulantes é outro critério de exclusão.
Rodrigo Nascimento, diretor médico da Eisai no Brasil, explica que a Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) segue critérios que vão desde a categoria do medicamento até comparações com países onde ele já está disponível, além de considerar benefícios clínicos e evidências científicas.
— Trata-se de um medicamento inovador, resultado de décadas de desenvolvimento tecnológico. Quando se consideram fatores como inovação, complexidade das moléculas e os critérios adotados pelos órgãos reguladores, chega-se a esse valor — diz.
Por ser um anticorpo monoclonal, o tratamento exige acompanhamento médico. A administração é intravenosa, realizada em hospitais ou centros de infusão, com duas aplicações mensais — uma a cada 15 dias — na dose de 10 mg por quilo de peso.
— A principal notícia é que, pela primeira vez, medicamentos como o lecanemabe e o donanemabe, aprovado em 2025, apontam um caminho possível ao atuar em mecanismos biológicos fundamentais da doença. Esse é um alvo que deve continuar sendo explorado, com a expectativa de terapias cada vez mais eficazes e seguras — conclui Paulo Caramelli.





