Real é uma das três moedas mais valorizadas em 2025. Até quando?
Divisa brasileira só fica atrás do rublo e da coroa dinamarquesa. Em novembro, estava entre as que mais perderam valor em relação ao dólar
O entrou para um seleto grupo de moedas globais. Em uma comparação com 27 divisas, ela ocupa a terceira posição entre as que mais valorizaram em 2025 em relação ao . Nesse ranking, o dinheiro brasileiro só perde para o rublo russo e para a coroa sueca. É isso o que mostra um levantamento realizado pela consultoria Elos Ayta.
A análise comparou o desempenho das moedas do início de 2025 até a segunda-feira (24/3), considerando a cotação do dólar Ptax, calculado pelo Banco Central (). Com base nesses parâmetros, o rublo registrou valorização de 31,74%. Em segundo lugar, a coroa sueca avançou 8,88% e, na terceira posição, o real subiu 7,87% (veja abaixo ranking completo).
Esse quadro contrasta de forma radical com uma pesquisa semelhante realizada pela mesma consultoria em novembro de 2024. Ou seja, há cerca de quatro meses. Na ocasião, o real estava na posição diametralmente oposta. Era a moeda que apresentava a segunda maior desvalorização em relação ao dólar. Ele só não perdia para o peso argentino – que ainda continua na rabeira da lista.
Para Einar Rivero, sócio da Elos Ayta, uma valorização como a obtida pelo real em 2025 não ocorria desde o primeiro trimestre de 2022, quando a moeda nacional disparou 17,79%.
“O desempenho positivo reflete fatores como fluxos de capital para o Brasil, perspectivas econômicas e o cenário internacional”, diz Rivero. “Mesmo sem repetir a forte valorização de 2022, a moeda mostra recuperação relevante.”
Combinação de fatores
Na avaliação de Sérgio Goldenstein, estrategista-chefe da corretora Warren Investimentos, uma combinação de fatores, tanto externos como internos, explica a valorização do real em 2025. Diz o economista: “No cenário internacional, vale destacar o enfraquecimento global do dólar, tendo em vista os crescentes receios em relação a um arrefecimento mais forte da atividade nos Estados Unidos”.
Goldenstein observa que, além disso, há apostas entre os agentes econômicos que, na prática, a ameaça de elevação de tarifas sobre produtos importados, impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, “seria menos agressiva do que a retórica do republicano com relação à política comercial”.
Quadro interno
No campo doméstico, o economista da corretora destaca o peso do “volume significativo de desmonte de operações de hedge cambial por parte de investidores estrangeiros”. Esses contratos de hedge (literalmente, “cobertura”) são usados para fixar um valor do dólar, protegendo empresas e investidores contra os riscos de variações cambiais.
Goldenstein afirma que eles foram “desmontados” em função do elevado custo (devido ao diferencial de juros) e das pesadas intervenções do BC em dezembro no mercado à vista de dólar. “Além disso, caso o governo Trump parta para uma guerra comercial mais pesada, o real seria menos afetado do que moedas pares, como o peso mexicano, pois os EUA representam apenas 12% como destino das nossas exportações do Brasil, atrás da China e da União Europeia”, afirma.
Até quando
Por fim, diz o economista, sob o ponto de vista do mercado, “houve alguma queda do prêmio de risco devido à perda de popularidade do presidente Lula, o que aumenta as chances em 2026 de eleição de um candidato com ideário liberal”.
Quanto até quando esse movimento de valorização do real deve durar, Goldenstein acredita que ele “dependerá da evolução do dólar globalmente e, internamente, da percepção sobre os riscos fiscais e políticos”.
Déficit dentro da meta
Mauro Rochlin, coordenador do MBA de Gestão Estratégica e Econômica de Negócios da Fundação Getulio Vargas (FGV), acrescenta que o déficit primário obtido pelo governo em 2024 ajudou na queda do dólar em relação ao real. “Ele ficou em 0,1% do PIB”, diz. “Embora a meta fosse zero, havia uma margem de 0,25%. Assim, o resultado manteve-se dentro do intervalo de tolerância da meta.”
Rochlin também destaca o papel na queda do dólar do fato de a guerra comercial movida por Trump “parecer ser menos virulenta do que se esperava”. O diferencial da taxa de juros entre Brasil e Estados Unidos (a favor do Brasil), nota o economista, também ajuda a atrair dólares para o mercado brasileiro, reduzindo a pressão de aumentos da moeda americana.
Nos Estados Unidos, os juros estão no intervalo entre 4,25% e 4,50%. No Brasil, a taxa básica está em 14,25% e a perspectiva é que avance até perto de 15%.
Previsões frágeis
O professor de MBA da FGV lembra que o câmbio é uma das variáveis macroeconômicas de mais difícil previsão. Ainda assim, considera que, com bons resultados na área fiscal no Brasil e um menor crescimento econômico nos EUA, aumentam as chances de o real se manter valorizado em relação ao dólar por mais tempo.
O comportamento das 27 moedas em relação ao dólar*
Rublo + 31,74%
Coroa sueca + 8,88%
Real + 7,87%
Coroa norueguesa + 7,79%
Peso chileno + 6,43%
Peso colombiano + 5,76%
Iene/Japão + 4,37%
Coroa dinamarquesa + 3,91%
Libra esterlina/Inglaterra + 3,90%
Sol/Peru + 3,58%
Franco suíço + 3,41%
Rand sul-africano + 3,35%
Peso mexicano + 3,35%
Euro + 3,23%
Dólar australiano + 1,26%
Peso filipino + 0,98%
Dólar canadense + 0,70%
Yuan/China + 0,69%
Won/Coreia do Sul + 0,49%
Rial/Arábia Saudita + 0,15%
Rúpia/Índia – 0,06% (**)
Dólar de Hong Kong – 0,13%
Dólar taiwanês – 0,76%
Novo Shekel/Israel – 0,82%
Rúpia/Indonésia – 1,01%
Peso argentino – 3,62%
Lira/Turquia – 6,88%
(*) Até 24/3, dólar Ptax
(**) A partir do 20º lugar, houve desvalorização em relação ao dólar
Fonte: Elos Ayta
Por: Metrópoles