“Trata-se de reconhecer o lugar onde se construíram mentiras oficiais que marcaram a história brasileira e que só agora, 50 anos depois, foi possível revelar, graças à preservação garantida pelo tombamento e às pesquisas históricas, arqueológicas e arquitetônicas no espaço, feitas por universidades públicas”, afirmou. Mais de 50 anos após seu assassinato, o local exato em que o suicídio foi forjado ainda era incerto. Com base em evidências documentais, periciais e arquitetônicas, os estudos indicaram a sala específica, dentro do prédio, onde o corpo de Vlado foi registrado em fotografia, pendurado pelo pescoço por uma espécie de cinto. Na farsa montada pelos agentes da repressão, como era mais alto do que a janela em que foi pendurado, Herzog ficou com os pés arrastando no chão e os joelhos dobrados. Além disso, seu corpo tinha marcas de tortura. A imagem deu visibilidade, na época, à barbaridade cometida contra opositores do regime militar.“Localizar materialmente o espaço onde a ditadura encenou o falso suicídio de Vladimir Herzog permite demonstrar, com base em evidências científicas, a materialidade de fraudes cometidas por agentes do Estado.”
Fotografias e laudos periciais
Entre as ações, foi realizada ainda a análise dos laudos periciais de encontro do cadáver de José Ferreira de Almeida, assassinado em agosto de 1975, e do próprio Herzog, assassinado meses depois; e de depoimentos anteriores do fotógrafo Silvaldo Leung Vieira, que registrou a cena forjada de suicídio do jornalista. A dificuldade de confirmação do local se dava, inclusive, porque a descrição dos peritos, no caso Herzog, não batia com os elementos visíveis no enquadramento registrado na fotografia. O laudo dizia, por exemplo, que a janela era do modelo vitrô, enquanto na imagem aparecem apenas blocos de vidro. Deborah Neves contou, em entrevista à Agência Brasil, que encontrou um elemento importante para a pesquisa no livro A Casa da Vovó: uma biografia do DOI-Codi, de Marcelo Godoy. Na obra, há informações sobre a morte do tenente da Polícia Militar José Ferreira de Almeida, militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) preso e torturado por agentes da ditadura militar. Na ocasião, os militares disseram que o tenente havia cometido suicídio, também nas instalações do DOI-Codi de São Paulo, dois meses antes de Vlado. “A semelhança é impressionante, ele estava praticamente na mesma posição em que o Herzog foi fotografado. Marcelo conta que aquela foi a primeira vez em que a perícia tinha sido chamada no prédio do DOI-Codi. Eu falei ‘bom, se tem perícia, então tem o laudo’”, relatou a pesquisadora. “Quando eu achei o laudo do José Ferreira de Almeida, as coisas foram se encaixando. A descrição [da cela] era muito fiel, dizia ter bloco de vidro nas janelas.” Os laudos periciais, tanto do tenente quanto do jornalista, apontam que os corpos foram encontrados na “cela especial número 1”, registro crucial para a identificação do local onde o corpo de Herzog foi pendurado.Na documentação referente a Almeida, havia ainda imagens da parte de fora da cela, o que permitiu a identificação por meio da comparação com evidências físicas preservadas na estrutura atual do prédio. “Essa fotografia do lado de fora traz alguns elementos que não tinham lá na descrição do Herzog”, diz Deborah.“[Os corpos de] Almeida e o Herzog foram [encontrados] na mesma cela. E é só por meio dessa informação, que está presente no laudo [do tenente] - que é uma pessoa cuja a morte não teve a repercussão que teve o Herzog - que a gente conseguiu chegar à conclusão sobre a cela do Herzog”, explicou.
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