A pecuária brasileira voltou ao centro do debate global sobre sustentabilidade. Um estudo apresentado nesta segunda-feira (8), na sede da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), em Roma, indica que a cadeia nacional da carne bovina tem potencial para reduzir em até 92,6% a intensidade de suas emissões de carbono até 2050, mantendo elevados níveis de produção e ampliando a eficiência do sistema produtivo.
O levantamento, desenvolvido pelo FGV Agro e intitulado “Trajetórias de Descarbonização da Pecuária de Corte no Brasil 2025 a 2050”, foi apresentado durante a Quarta Sessão do Subcomitê de Pecuária do Comitê de Agricultura da FAO. A proposta é demonstrar, com base científica, como o Brasil pode responder simultaneamente à crescente demanda mundial por proteína animal e aos desafios impostos pelas mudanças climáticas.
A abertura das discussões contou com a participação do Diretor de Produção e Sanidade Animal e Diretor-Geral Assistente da FAO, Thanawat Tiensin, que reforçou a necessidade de governança e união multissetorial
“Quando falamos de produção pecuária sustentável, cada país precisa encontrar seu próprio caminho. A Agenda 2030 e seus objetivos não são uma opção. O ponto central é a necessidade de trabalhar em conjunto com agricultores, produtores, setor privado, academia e instituições de pesquisa. A transformação que buscamos precisa ser construída de forma coletiva”, declarou Tiensin.
Brasil lidera produção enquanto outros grandes polos reduzem rebanhosO estudo destaca que o setor pecuário global vive um momento de transição. Enquanto a demanda por carne continua crescendo, importantes regiões produtoras enfrentam retração de seus rebanhos.
Segundo os dados apresentados, os três principais blocos pecuários do mundo registram quedas históricas:
Na contramão desse movimento, o Brasil consolidou-se como o maior rebanho comercial do planeta, com 192,6 milhões de cabeças em 2024, reforçando sua posição estratégica para a segurança alimentar global.
Produzir mais utilizando menos terraUm dos pontos centrais do estudo é o ganho de produtividade alcançado pela pecuária brasileira nas últimas décadas.
Entre 2004 e 2024, a produção nacional de carne bovina cresceu mais de 240%, enquanto a área ocupada por pastagens recuou cerca de 11%, passando de 181 milhões para 160 milhões de hectares.
Esse avanço gerou o chamado efeito poupa-terra, conceito que mede quanto território deixou de ser convertido para a produção pecuária graças aos ganhos de eficiência.
Segundo a pesquisa, o Brasil evitou a utilização de aproximadamente 397 milhões de hectares adicionais, que seriam necessários caso os índices de produtividade permanecessem nos mesmos níveis observados em 1990.
Além disso, o levantamento ressalta que o país utiliza apenas 30,2% do território nacional para atividades agropecuárias, enquanto mantém 66,3% da vegetação nativa preservada, sendo que 33,2% estão protegidos dentro de propriedades rurais privadas, conforme determina o Código Florestal Brasileiro.
Como a pecuária brasileira pode reduzir emissões até 92,6%A pesquisadora da FGV Agro, Camila Estevam, explicou que os modelos matemáticos desenvolvidos para o estudo apontam diferentes cenários de descarbonização.
Segundo ela, mesmo mantendo as tendências atuais de evolução tecnológica e produtiva, a pecuária brasileira já seria capaz de reduzir em até 60% suas emissões absolutas até 2050.
Quando analisada a intensidade de carbono por quilo de carne produzida, a redução pode chegar a 80%, caindo de aproximadamente 80 kg para 16 kg de CO₂ equivalente por quilo de carne.
Nos cenários mais avançados, alinhados às metas do Plano ABC+, os resultados tornam-se ainda mais expressivos.
“Quando olhamos para os cenários mais ambiciosos, a intensidade de carbono cai 92,6%, chegando a apenas 5 kg de CO₂ equivalente”, explicou Camila Estevam.
De acordo com a pesquisadora, esse avanço é impulsionado principalmente por tecnologias como:
O estudo também afasta a ideia de que reduzir emissões significa produzir menos.
No cenário mais avançado de mitigação, a produção brasileira de carne bovina poderá atingir 18,2 milhões de toneladas de carcaça em 2050, ao mesmo tempo em que a área de pastagens seria reduzida em mais 35%.
Outro indicador importante é o aumento esperado na produtividade animal.
O peso médio das carcaças poderá saltar de 211 kg para 277 kg por animal abatido, representando crescimento superior a 31%.
Estudo fortalece imagem da carne brasileira no mercado internacionalA apresentação do relatório dentro de um dos principais fóruns agropecuários da ONU foi vista pelo setor exportador como um importante respaldo técnico para a carne bovina brasileira diante das crescentes exigências ambientais dos mercados internacionais.
Para o diretor de sustentabilidade da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Fernando Zelner, a validação científica é fundamental para fortalecer a reputação do produto brasileiro.
“Isso é fundamental para a exportação e para a gente trazer os dados duros, com ciência bem fundamentada, para mostrar para o mundo por que a nossa carne é sustentável e por que o nosso produto é confiável”, afirmou Zelner.
ILPF ganha destaque como diferencial da pecuária brasileiraDurante o evento, o presidente da ApexBrasil, Laudemir Müller, destacou que a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta se tornou um dos principais diferenciais competitivos do Brasil na agenda climática.
Segundo ele, o país já possui cerca de 17 milhões de hectares com sistemas integrados de produção, modelo que permite produzir grãos, carne e árvores na mesma área ao longo do tempo.
“O que o Brasil faz de diferente é que, na mesma área da pastagem para o boi, fazemos uma rotação com lavoura e floresta na mesma propriedade. Esse sistema otimiza a terra e reduz a pegada de carbono de forma definitiva”, ressaltou Müller.
O desafio da pecuária do futuroA mensagem apresentada pelo Brasil à comunidade internacional é clara: a sustentabilidade da pecuária não passa necessariamente pela redução da produção, mas pela intensificação tecnológica e pela melhoria dos indicadores de eficiência.
Os dados apresentados na FAO reforçam que a recuperação de pastagens, a integração dos sistemas produtivos e os investimentos em inovação podem permitir que o país amplie sua participação no abastecimento mundial de proteínas ao mesmo tempo em que reduz significativamente sua pegada ambiental.
Para um setor frequentemente colocado no centro das discussões climáticas globais, o estudo busca demonstrar que a pecuária brasileira pretende transformar produtividade, conservação e competitividade em pilares complementares — e não conflitantes — nas próximas décadas.
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias.





