Acompanho com atenção o recente Alerta Epidemiológica da OPAS/OMS, que sinaliza o início oficial da temporada de vírus respiratórios no Hemisfério Sul, que impõe uma vigilância rigorosa sobre a Influenza e o Vírus Sincicial Respiratório (VSR).
O dado mais relevante extraído da temporada do Hemisfério Norte foi o predomínio absoluto do vírus Influenza A(H3N2), subclado K. Este sublinhagem demonstrou uma dinâmica de “atividade intensa concentrada”, o que significa picos de hospitalização muito elevados em janelas temporais curtas, testando a resiliência da capacidade instalada dos sistemas de saúde.
Em Santa Catarina, os dados da DIVE (Diretoria de Vigilância Epidemiológica) começam a refletir essa tendência global. Estamos entrando na fase de co-circulação viral, onde o monitoramento não deve se restringir apenas à Influenza, mas também ao Vírus Sincicial Respiratório (VSR) e ao SARS-CoV-2.
Um ponto de atenção técnica central é a distância antigênica entre o vírus circulante e as vacinas de temporadas anteriores. No Hemisfério Norte, a efetividade da vacina foi considerada moderada devido à circulação do subclado K.
Para a região de Santa Catarina e o Cone Sul, a recomendação da OMS para 2026 foi a atualização do componente A(H3N2) para a cepa A/Tasmanian/1003/2025 (subclado L.1). Esta mudança visa diminuir o risco de mismatch (incompatibilidade) e maximizar a proteção sorológica. É extremamente fundamental que a cobertura vacinal em Santa Catarina atinja as metas nos grupos de risco (idosos e pacientes com comorbidades) antes da transição para os meses de inverno, quando a transmissibilidade atinge o R0 (número básico de reprodução) mais elevado.
A OPAS alerta para a potencial co-circulação de Influenza A(H3N2) e VSR. Do ponto de vista clínico, a infecção simultânea ou sequencial por esses agentes pode exacerbar a gravidade das Infecções Respiratórias Agudas Graves (IRAG). No cenário catarinense, o monitoramento genômico realizado pela DIVE/SC é essencial para identificar a prevalência do VSR, que não se restringe apenas à pediatria, mas tem demonstrado carga de morbidade crescente em idosos.
A antecipação da demanda por oxigenoterapia e suporte ventilatório deve ser baseada nos modelos preditivos de circulação que já indicam um aumento na positividade laboratorial.
A recomendação técnica para os gestores e profissionais de saúde catarinenses é o fortalecimento da Vigilância Sentinela. Isso inclui o monitoramento de SGB (Síndrome de Guillain-Barré), pois dados indicam que picos de Influenza podem estar associados a aumentos temporais de complicações neurológicas pós-virais, repito, pós-virais e não pós- vacinais ok? Ou seja, ao ter influenza temos maior probabilidade de ter Síndrome de Guillain-Barré que é uma polirradiculoneuropatia inflamatória aguda de natureza autoimune.
Em termos simples, é uma condição na qual o sistema imunológico do paciente, ao tentar combater um agente invasor (vírus ou bactéria), confunde-se e ataca os próprios nervos periféricos e as suas raízes. O alvo principal desse ataque é a bainha de mielina (a camada isolante que envolve os nervos) ou o próprio axónio (a parte do nervo que transmite o impulso elétrico). Quando essa estrutura é danificada, a comunicação entre o cérebro e os músculos/órgãos é interrompida.
Outro ponto de vigiancia sentinela é o uso oportuno de antivirais, no qual o manejo farmacológico com inibidores da neuraminidase (como o Oseltamivir) deve ser iniciado precocemente em pacientes com fatores de risco para Síndrome Respiratória Aguda Grave, sem aguardar confirmação laboratorial, conforme diretriz de manejo clínico para períodos de alta circulação.
O cenário atual em Santa Catarina caracteriza-se por uma transição epidemiológica crítica. Após um período de baixa incidência no verão, os boletins da DIVE/SC indicam uma inflexão na curva de hospitalizações, com um aumento sustentado nas notificações de SRAG. Diferente dos anos anteriores, onde o SARS-CoV-2 dominava isoladamente, o perfil laboratorial de 2026 revela uma distribuição multicausal.
Observa-se um crescimento exponencial na positividade de Influenza A (H3N2) das amostras processadas pelo LACEN/SC. Alinhado ao alerta da OPAS, o vírus circulante em SC já apresenta características do subclado K, conhecido pela sua alta taxa de ataque e rapidez na disseminação comunitária. Já o Vírus Sincicial Respiratório (VSR), já é o principal responsável pela ocupação de leitos de UTI Neonatal e Pediátrica no estado.
A DIVE/SC alerta que a sazonalidade do VSR em Santa Catarina iniciou-se de forma precoce este ano. Em relação ao rinovírus e metapneumovírus, mantêm uma circulação basal importante, contribuindo para a sobrecarga das unidades de pronto atendimento (UPAs).
Os dados de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) em SC mostram uma curva bimodal de gravidade, com extremos de Idade. Crianças menores de 2 anos (predomínio de VSR) e idosos acima de 75 anos (predomínio de Influenza A e COVID-19) representam mais de 65% das hospitalizações por SRAG no estado.
Já a taxa de letalidade entre casos de SRAG hospitalizados mantém-se estável, mas a preocupação técnica reside no volume absoluto de casos, que pode levar ao “transbordo” da capacidade hospitalar nas regiões da Grande Florianópolis, Foz do Rio Itajaí e Oeste.
A análise da DIVE/SC aponta uma heterogeneidade perigosa na cobertura vacinal entre as macrorregiões de saúde. Municípios com coberturas inferiores a 80% nos grupos prioritários estão a reportar taxas de internamento por Influenza significativamente superiores.
Como infectologista, preciso destacar que a vacina da gripe de 2026 foi especificamente desenhada para cobrir as variantes detectadas pela vigilância genômica global, tornando a imunização a principal ferramenta de contenção de óbitos evitáveis.
O que os dados da DIVE/SC nos dizem hoje é que não estamos perante uma “gripe comum”. A agressividade do H3N2 (Subclado K) e a antecipação do VSR exigem que o clínico e o cidadão catarinense não subestimem os sintomas respiratórios. A SRAG em SC hoje tem rosto: a criança com cansaço respiratório e o idoso com descompensação de doenças crónicas após um quadro viral aparentemente leve.
Vacinem-se e vacinem os seus.
Por Sabrina Sabino, médica infectologista, formada em Medicina pela PUCRS, mestre em Ciências Médicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e professora de Doenças Infecciosas na Universidade Regional de Blumenau.





