Conforme lembra a instituição, o desprezo por essas pessoas tomou conta do país todo e faz parte da história brasileira, "de modo incontornável". A universidade menciona, ainda, o Hospital Colônia de Barbacena (foto), por sua marcante contribuição nesse cenário de marginalização e invisibilização dos pacientes."A partir desse contexto, a chamada 'loucura' passou a ser associada à ideia de incapacidade e periculosidade, vinculada a uma identidade social deteriorada e desumanizada. Esse processo contribuiu para a consolidação de estigmas e práticas discriminatórias", diz a nota, enumerando como alguns dos quesitos para hierarquizar as pessoas, no período, gênero, classe social, orientação sexual e raça.
Desse total de corpos, o Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFJF, indicam os registros, recebeu, entre os anos de 1962 e 1971, 169 deles, para serem estudados em aulas de anatomia humana. Como forma de reparação simbólica, a instituição comprometeu-se a lançar e manter iniciativas como ações educativas sobre direitos humanos e saúde mental e buscar apoio para a criação de um memorial. Também planeja organizar pesquisas documentais sobre conexões entre a instituição e o Hospital de Barbacena. "Desde 2010, o Departamento de Anatomia do ICB iniciou a implementação do Programa de Doação Voluntária de Corpos – Sempre Vivo. Desde então, todos os corpos recebidos pela instituição são provenientes exclusivamente de doações voluntárias, além de ações de conscientização e sensibilização à sociedade e a todos alunos ingressantes dos cursos da saúde sobre a importância da doação voluntária de corpos em conformidade com as normas vigentes e com o respeito à dignidade humana previsto em lei", ressalta o comunicado. Com teor parecido, a UFMG, também pelos vínculos sombrios com o Hospital Colônia de Barbacena, formalizou pedido de desculpas por meio de declaração pública. A universidade disse que o reconhecimento público de sua responsabilidade pelas atrocidades cometidas é acompanhado de ações de memória em conjunto com grupos da luta antimanicomial, restauração do livro histórico de registro de cadáveres e inclusão do tema em disciplinas de anatomia da Faculdade de Medicina."Estima-se que mais de 60 mil pessoas tenham morrido no local ao longo do século XX, muitas delas classificadas como indigentes, conforme relatado no livro Holocausto Brasileiro, da jornalista Daniela Arbex. A obra também registra que 1.853 corpos de internos foram comercializados para instituições de ensino da área da saúde, para uso em aulas de anatomia", pontua.
"Desde 1999, a UFMG conta com um programa de doação de corpos para estudo de anatomia, que funciona de forma voluntária e consentida e é uma prática legal e ética, alinhada a padrões internacionais.""Ao falecerem, muitas dessas pessoas foram enterradas como indigentes ou tiveram seus corpos destinados a uma das 17 instituições de ensino médico para viabilizar aulas de anatomia", assinala no informe.
Loucura e cultura
Há hoje uma imensidade de obras sobre o tema. Uma das mais famosas é o conto O Alienista, do escritor Machado de Assis, um dos principais autores negros do Brasil. No site do Museu Imagens do Inconsciente, localizado no Rio de Janeiro, é possível conhecer mais sobre o trabalho da psiquiatra Nise da Silveira, que revolucionou os tratamentos para transtornos mentais ao aliar cuidados humanizados e arte. Relacionadas





