A morte do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, em 28 de fevereiro, agravou a crise no Oriente Médio ao intensificar a ofensiva militar entre Israel e Estados Unidos, apoiada por aliados europeus, contra o país persa deixando ao menos 1.332 civis mortos. Desde então, Teerã tomou medidas de retaliação contra 11 países vizinhos.
Além de desencadear uma escalada militar na região, os ataques norte-americanos aceleraram a sucessão no regime. Em 8 de março, o filho do líder supremo, Mojtaba Khamenei, foi escolhido pela Assembleia de Peritos do Irã para assumir o cargo.
O Irã ataca por duas frentes: a partir de suas próprias instalações militares ou por meio do apoio do Hezbollah no Líbano –grupo xiita armado com forte presença militar e influência política no país.

Em 2 de março, o grupo abriu uma nova frente de confronto ao lançar foguetes e drones contra Israel, e o governo libanês voltou a defender que a decisão de guerra e paz cabe exclusivamente ao Estado. Israel respondeu com bombardeios no sul do Líbano, no vale do Bekaa e nos arredores de Beirute.
Os Estados Unidos, por sua vez, têm usado estruturas militares em 8 países que são vizinhos ao Irã para atividades de defesa. As operações norte-americanas nesses territórios podem incluir a interceptação de mísseis, vigilância ou suporte às tropas que estão na região.
Para operações de ataques aéreos diretos, os pontos de partida não se limitam aos em países do Oriente Médio, –como é o caso das instalações no Qatar, Kuwait e Jordânia. Os Estados Unidos também têm usado as instalações no Reino Unido e na base britânica de Diego Garcia, localizada no Oceano Índico, para traçar as ofensivas diretas, além de contar com o apoio de navios porta-aviões.

A escalada também pressionou potências europeias a rever o tom adotado até agora. Alemanha, França e Reino Unido –que formam o grupo E3, que atuou nas negociações sobre o programa nuclear iraniano– emitiram um comunicado conjunto condenando a retaliação do Irã. Segundo a declaração, as nações consideram tomar medidas “potencialmente permitindo ações defensivas necessárias e proporcionais para destruir a capacidade do Irã de disparar mísseis e drones”.
Para Rodrigo Amaral, professor de relações internacionais da PUC-SP e analista de política internacional no Oriente Médio, o endurecimento do discurso do E3 se dá por causa do risco de expansão do conflito, dos efeitos da guerra sobre energia e petróleo e da necessidade de a Europa preservar espaço diplomático diante da imprevisibilidade dos Estados Unidos.
Amaral afirma que o risco imediato está no Golfo Pérsico, com a possibilidade de bloqueio ou restrição do fluxo no Estreito de Ormuz, corredor estratégico para a exportação de petróleo da região. Segundo ele, isso afetaria não só o Irã, mas também países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Qatar, ampliando o impacto sobre o mercado internacional e pressionando a Europa em um momento em que o continente ainda tenta recompor sua segurança energética desde o início da guerra da Rússia contra a Ucrânia, em 2022.
Amaral diz que França, Alemanha e Reino Unido tentam retomar protagonismo numa pauta em que já tiveram papel central ao negociar o JCPOA (Plano de Ação Conjunto Global), firmado na década de 2010 para limitar o programa nuclear iraniano.
Segundo ele, esse espaço se enfraqueceu depois que os Estados Unidos deixaram o acordo, em maio de 2018, durante o 1º governo de Donald Trump. À época, o então presidente afirmou que o entendimento era “unilateral”, que “nunca deveria ter sido criado” e que permitiu ao Irã seguir enriquecendo urânio.
Para Amaral, a movimentação atual de Emmanuel Macron deve ser lida menos como uma resposta direta a Teerã e mais como uma tentativa de recolocar a França e o E3 no centro da via diplomática sobre o programa nuclear iraniano. Na prática, Macron endureceu o discurso ao dizer em 2025 que o Irã não poderia adquirir armas nucleares, e defendeu garantias formais sobre o caráter pacífico do programa e passou a pressionar pela retomada das negociações com mediação europeia.
Apesar do reposicionamento diplomático, Amaral avalia que a influência europeia sobre a crise é limitada porque o centro da escalada está fora do continente. Segundo ele, os países do E3 tentam preservar canais diplomáticos e reforçar sua credibilidade internacional, mas têm pouca capacidade de influenciar decisões militares e estratégicas tomadas por Washington, Tel Aviv e Teerã.
O professor afirma que França e Reino Unido carregam uma herança histórica no Oriente Médio desde a formação dos países na região depois da 1ª Guerra Mundial (1914-1918), o que ajuda a explicar a tentativa atual de manter influência diplomática. Para ele, esse passado também alimenta “rivalidades e desconfianças” entre potências europeias e países que consolidaram sua soberania depois de processos de descolonização.
Diferentemente de outros países do Golfo Pérsico, que tiveram a política externa tutelada pelo Reino Unido, o Irã não foi colônia. Ainda assim, antes da Revolução Islâmica de 1979, Teerã era aliado dos Estados Unidos sob o xá Mohammad Reza Pahlavi, com cooperação em segurança e compra de armamentos norte-americanos.
Na avaliação de Amaral, justamente por ter pouca capacidade de interferir diretamente na escalada militar, a Europa tende a reagir sobretudo pelos efeitos econômicos do conflito, especialmente no mercado de energia e nas rotas marítimas do Golfo Pérsico.
Amaral avalia que a guerra entre Rússia e Ucrânia continua sendo o eixo central da estratégia russa desde fevereiro de 2022. Segundo o professor, trata-se de um conflito essencialmente territorial, ainda que inclua ataques aéreos e pressão contínua sobre cidades e infraestrutura.
Em 9 de março, o presidente da Rússia, Vladimir Putin (Rússia Unida), propôs uma resolução diplomática a guerra no Irã durante ligação telefônica ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (Partido Republicano). Como mostrou o Poder360, por causa da proximidade política com o Irã, Putin demonstrou disposição para conduzir conversas entre as partes. Mesmo sendo aliado de Teerã, é improvável que Moscou se envolva militarmente no conflito –o que também resultaria em um embate com Washington.
Segundo o especialista, o principal ganho russo, neste momento, está menos no campo militar e mais no plano narrativo: usar a crise para desgastar os Estados Unidos e reforçar o argumento de que Washington age de forma unilateral em temas de segurança internacional.





