Governo projeta produzir 400 mil toneladas de tilápia em Itaipu e plano divide especialistas
Projeto apoiado pelo governo federal de produção de tilápia em Itaipu, pode transformar o reservatório binacional de Itaipu em um dos maiores polos de tilapicultura do mundo — mas levanta alertas sobre riscos ambientais e desafios regulatórios.
Projeto apoiado pelo governo federal de produção de tilápia em Itaipu, pode transformar o reservatório binacional de Itaipu em um dos maiores polos de tilapicultura do mundo — mas levanta alertas sobre riscos ambientais e desafios regulatórios. O governo brasileiro avalia um projeto ambicioso que pode redefinir o papel produtivo do reservatório da Usina Hidrelétrica de Itaipu: a possibilidade de produzir até 400 mil toneladas de tilápia por ano, volume capaz de colocar o empreendimento entre os maiores centros aquícolas do planeta. A iniciativa ganhou tração após o Paraguai sancionar, em dezembro, uma lei que permite o cultivo de espécies exóticas em corpos d’água fechados e semiabertos — medida que, na prática, abre caminho para a tilapicultura no lago binacional. Com cerca de 1.350 km², o reservatório já desempenha múltiplas funções, como geração de energia, armazenamento de água e produção comercial, além de servir de habitat para diversas espécies da fauna local. Clique aqui para seguir o canal do CompreRural no Whatsapp
A proposta conta com apoio da direção de Itaipu e do governo federal, por meio do Ministério da Pesca. Projeções da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) indicam que o local teria capacidade para sustentar o volume estimado de produção. window._taboola = window._taboola || [];
_taboola.push({mode:'thumbnails-mid', container:'taboola-mid-article-thumbnails', placement:'Mid Article Thumbnails', target_type: 'mix'});O que ainda impede o avanço do projeto de tilápia em Itaipu Apesar do entusiasmo, a liberação definitiva depende de um passo crucial: a revisão do Acordo Bilateral Brasil–Paraguai, que atualmente proíbe o uso de espécies exóticas — aquelas de fora da bacia hidrográfica — no reservatório. Qualquer alteração precisará passar pelo Congresso Nacional. Até o momento, porém, não há movimentação concreta no Legislativo. A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) afirma que ainda não existe tramitação ou articulação formal para modificar o acordo. O grupo defende que o governo lidere os próximos passos técnicos, incluindo estudos sobre a capacidade de suporte do reservatório e a criação de um protocolo para concessão de áreas aquícolas. Para os parlamentares, a autorização deve estar condicionada a critérios sólidos, como licenciamento ambiental, monitoramento contínuo e governança binacional. “O setor produtivo precisa de sinalização objetiva para planejar investimentos”, declarou a FPA ao destacar a necessidade de previsibilidade regulatória. Riscos ambientais entram no radar Se por um lado o projeto aponta para ganhos econômicos e expansão da aquicultura, por outro especialistas alertam para possíveis impactos ecológicos.
O biólogo e professor de ecologia Jean Vitule afirma que escapes de tilápias ocorrem em 100% dos locais de cultivo em tanques-rede, método previsto para Itaipu. Uma vez fora das gaiolas, os peixes podem se espalhar pelos rios adjacentes — e, diferentemente de poluentes químicos, avançar inclusive contra a corrente. Segundo o pesquisador, eventos como ventos fortes, chuvas, acidentes com troncos ou alterações na vazão do reservatório podem danificar as estruturas de cultivo e facilitar a fuga dos animais. Outro ponto de atenção é a possibilidade de atração de espécies invasoras, como o mexilhão-dourado, que já representa um problema na região. O organismo pode se incrustar nas estruturas, aumentar custos de manutenção e até exigir o uso de reagentes químicos, com potenciais reflexos para a sociedade. A bióloga Gilmara Junqueira ressalta que a tilápia possui alta capacidade de adaptação a diferentes temperaturas e ambientes, o que favorece sua sobrevivência em reservatórios e amplia o risco de desequilíbrios ecológicos caso escape.
Além de competir por recursos com espécies nativas, os peixes podem transportar parasitas e alterar ecossistemas — especialmente devido ao comportamento territorialista e à elevada taxa reprodutiva. O alerta ganha peso adicional diante de dados científicos: entre todas as espécies registradas no Brasil, a tilápia lidera em número de impactos ambientais documentados, segundo relatório da Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES). O que diz Itaipu A usina afirma que a eventual introdução da tilápia não deve afetar a geração de energia nem provocar conflitos entre usuários da água. Para reduzir riscos, a hidrelétrica lista uma série de medidas previstas:
Monitoramento ambiental das áreas produtivas; Uso de rações adequadas e protocolos de alimentação eficientes; Ferramentas para impedir a reprodução, como populações monossexo; Controle sanitário e vacinação; Rastreabilidade genética e sanitária; Estruturas de cultivo robustas com automação; Cumprimento das condicionantes ambientais das licenças; Escolha de áreas com maior resiliência ambiental. A empresa também destaca que a qualidade da água do reservatório será fator central de segurança, influenciada por atividades agropecuárias, ocupação populacional e ações de conservação no entorno. Um projeto que pode redesenhar a aquicultura brasileira Se avançar, o plano tem potencial para reposicionar o Brasil no mercado global de pescado, ampliando a oferta de proteína e estimulando investimentos na cadeia produtiva. Ao mesmo tempo, expõe um debate clássico do agronegócio moderno: como equilibrar expansão produtiva e proteção ambiental.
Por: Redação





