Funcionários públicos brasileiros demonstram entusiasmo em usar inteligência artificial no trabalho, mas estão entre os que recebem menos incentivo institucional para utilizar a tecnologia.
O dado consta do Índice de Adoção de IA no Setor Público 2026, divulgado na 4ª feira (11.mar.2026) pela consultoria Public First para o Center for Data Innovation, com patrocínio do Google. O levantamento ouviu 3.335 funcionários públicos em 10 países: Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, França, Japão, Índia, Cingapura, Arábia Saudita, África do Sul e Brasil. Leia a íntegra.
Segundo o estudo, 83% dos funcionários públicos brasileiros consideram a inteligência artificial eficaz e 89% dizem que a tecnologia ajuda a economizar tempo no trabalho. Mas só 41% dizem que alguma forma de capacitação é oferecida. Ao lado da Alemanha, é a menor taxa entre os países.
Para Karan Bathia, vice-presidente de Assuntos Governamentais e Políticas Públicas do Google, o contraste não impede que, na avaliação global, o Brasil esteja na média dos países pesquisados.
“Há entusiasmo e também o fato de que eles [funcionários públicos] não se sentem encorajados no Brasil. No resultado geral, o Brasil ficou mais ou menos no meio da tabela, o que eu considero, na verdade, uma posição encorajadora”, disse em entrevista ao Poder360.
O índice mede 5 dimensões da adoção de inteligência artificial no setor público: entusiasmo, empoderamento, capacitação, integração e educação. As notas são calculadas em uma escala de 0 a 100 para permitir comparação entre os países.

No caso brasileiro, o entusiasmo dos funcionários públicos não é acompanhado por infraestrutura ou orientação institucional. Mais de 60% afirmam que suas organizações não fornecem ferramentas ou recursos suficientes para usar IA de forma eficaz.
Para Bathia, no entanto, o interesse demonstrado pelos funcionários públicos pode ser um ponto de partida positivo: “A métrica mais importante é o entusiasmo. Em outras palavras, há apetite por parte dos trabalhadores do setor público para adotar a tecnologia. E, francamente, é melhor do que em qualquer outro país do mundo”.
O estudo também mostra que 63% dos funcionários públicos brasileiros começaram a usar inteligência artificial no trabalho no último ano, indicando expansão recente da tecnologia na administração pública.
Ainda assim, 1 em cada 4 entrevistados diz que o ambiente de trabalho dificulta o uso de IA, mesmo quando a ferramenta poderia ajudar nas tarefas diárias.
“A dicotomia que existe, o paradoxo, é que, apesar desse entusiasmo, há alguns outros elementos importantes que eu acredito que poderiam ser fortalecidos”, afirmou Karan.
A pesquisa indica que muitos funcionários públicos recorrem a ferramentas pessoais ou abertas de inteligência artificial, em vez de soluções oficiais fornecidas pelos órgãos onde trabalham.
Outro dado reforça esse cenário: 67% dizem ter aprendido a usar IA de forma totalmente ou majoritariamente autodidata, a taxa mais alta entre os países analisados. Segundo Bathia, isso ocorre porque a tecnologia já faz parte da rotina pessoal de muitos trabalhadores. E a adoção oficial não vem na mesma velocidade.
“Estamos nas fases iniciais da inteligência artificial. Não estou culpando nenhum governo. Todos ainda estão tentando entender como lidar com isso. Mas o que vemos são funcionários do setor público, em vários lugares, em sua vida doméstica e pessoal, experimentando ferramentas de IA”, disse.
Ele afirma que muitos funcionários públicos utilizam ferramentas modernas fora do trabalho, mas encontram sistemas mais antigos dentro das organizações.
“Eles chegam ao trabalho e não têm acesso às mesmas ferramentas que usam em casa para planejar agendas, organizar viagens ou o que quer que seja. Acabam utilizando no trabalho uma geração anterior de ferramentas de tecnologia da informação”, disse.
O estudo também aponta que a inteligência artificial pode aumentar a eficiência do setor público e ajudar na análise de grandes volumes de dados.
Ele diz que a tecnologia pode ajudar inclusive na identificação de desperdícios e fraudes.
“Ela permite que o funcionário público médio seja mais eficiente no dia a dia, mas também lida com desafios do governo, como desperdício, fraude e abuso, áreas em que a IA é uma ferramenta muito mais poderosa para identificar esses problemas”, disse.





