Mulher
A pesquisadora Janaína Rodrigues Feijó, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV, atribui o resultado à maior capacidade da mulher de administrar a renda do Bolsa Família.O levantamento detalha que no intervalo de um ano, 946,6 mil domicílios assistidos pelo Bolsa Família deixaram a fome e chegaram à segurança alimentar. Desses, quase 670 mil eram chefiados por mulher. Janaína escreve na pesquisa que estudos acadêmicos mostram que “quando mulheres controlam uma parcela maior dos recursos do domicílio, a composição do gasto tende a se deslocar para bens mais associados ao bem-estar infantil e familiar, como alimentação, saúde, educação e itens de consumo da criança”.“Elas gastam melhor os recursos dentro do lar, especialmente quando tem crianças”, diz Janaína.
O programa
O Bolsa Família, pago pelo governo federal, é o principal programa de transferência de renda do país. O critério inicial para uma pessoa ser assistida é ter renda mensal familiar de até R$ 218 por pessoa (quanto a família ganha por mês, dividido pelo número de pessoas). O benefício base é R$ 600, que pode ser aumentado em casos de haver criança e grávida na família, por exemplo. O valor médio do benefício está em R$ 683,75. Segundo o Ministério de Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), agora em março, o programa alcançará 18,73 milhões de famílias cadastradas, com gasto de R$ 12,77 bilhões.Pessoa de referência
O estudo cita números de janeiro de 2026 que indicam que, das famílias atendidas pelo Bolsa Família, 84,4% tinham a mulher como responsável. Janaína Feijó considera que programas de transferência de renda podem “fortalecer o empoderamento feminino e o poder de barganha dentro do lar”. “Especialmente ao ampliar a participação das mulheres em decisões de gastos, consumo e outros aspectos da vida doméstica”, sustenta.Negras
Ao destacar que 70,8% dos lares de beneficiários do Bolsa Família que alcançaram a segurança alimentar eram chefiados por mulher, o levantamento assinala que 61,4% (581 mil) tinham como responsável mulher preta ou parda.O ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, Wellington Dias, chamou de “estratégica” a decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de priorizar mulheres como recebedoras. “Foi dele a ideia de que tinha que colocar o cartão nas mãos das mulheres”, lembrou. “A pesquisa mostra o efeito extraordinário que isso tem, tanto em relação à saúde, à educação, às condicionalidades e mesmo em relação à renda. Além de tirar da fome, que é, na verdade, um primeiro passo, a gente trabalha a superação da pobreza”, comentou em conversa com jornalistas.“Ninguém estuda de barriga vazia”, declarou a ministra.
Mapa da Fome
O evento na FGV reuniu especialistas e autoridades que atuam no combate à fome. Um dos pontos abordados foi a saída do Brasil do chamado Mapa da Fome. Em 2025, o Brasil deixou, pela segunda vez, o Mapa da Fome – um indicador da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) que identifica países em que mais de 2,5% da população sofrem de subalimentação grave (insegurança alimentar crônica). O Brasil já tinha alcançado esse patamar em 2014, mas retornou ao Mapa da Fome em 2022, último ano do governo Jair Bolsonaro (2019-2022), com 33 milhões de pessoas em insegurança alimentar grave. No biênio 2023-2024, 26,5 milhões de pessoas deixaram a fome no país, segundo o MDS. O estudo da FGV projeta que, caso não houvesse o programa Bolsa Família, a segurança alimentar no país cairia de 53 para 50,2% entre os beneficiários. Já a forma mais grave da fome subiria de 7,1% para 8,1%. “Os resultados reforçam a importância de políticas públicas de transferência de renda para a redução da insegurança alimentar no Brasil, especialmente quando voltadas aos domicílios em maior vulnerabilidade social”, conclui a pesquisa da FGV. Relacionadas
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