• Terça-feira, 9 de junho de 2026

EUA correm contra o tempo para conter parasita que devora tecido vivo e ameaça a pecuária

Primeiros casos da bicheira-do-novo-mundo, parasita que devora tecido vivo, foram confirmados no Texas após décadas sem registros nos Estados Unidos; autoridades mobilizam força-tarefa e reforçam bloqueios para evitar impacto sobre o menor rebanho bovino do país em 75 anos.

Os Estados Unidos estão enfrentando uma nova ameaça sanitária que pode gerar consequências severas para a pecuária bovina do país. A confirmação de dois casos da bicheira-do-novo-mundo (New World Screwworm – NWS) no sul do Texas colocou autoridades federais e estaduais em estado de alerta máximo, desencadeando uma operação emergencial para impedir a disseminação do parasita que foi erradicado do território norte-americano há mais de seis décadas.

A situação preocupa especialmente porque ocorre em um momento delicado para a pecuária dos EUA. O país já convive com o menor rebanho bovino dos últimos 75 anos, reflexo de anos de seca, altos custos de produção e redução da oferta de animais para abate. Agora, a possível reintrodução da praga adiciona mais um fator de risco para um mercado que já enfrenta preços recordes da carne bovina, conforme destacou reportagem da agência Bloomberg.

Primeiros casos foram registrados no Texas

O primeiro foco foi identificado em um bezerro de apenas três semanas de idade na cidade de La Pryor, no sul do Texas. Um dia depois, o Serviço de Inspeção de Saúde Animal e Vegetal dos Estados Unidos (APHIS), vinculado ao Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), confirmou um segundo caso em outro bezerro, desta vez no Condado de Zavala, localizado a cerca de nove quilômetros do foco inicial. A informação foi divulgada inicialmente pela revista especializada Drovers.

Segundo a Reuters, imediatamente após a confirmação dos casos, autoridades federais e estaduais criaram uma área de contenção de aproximadamente 20 quilômetros ao redor dos focos e restringiram a movimentação de animais na região.

A secretária de Agricultura dos Estados Unidos, Brooke Rollins, afirmou que, até o momento, nenhum outro caso foi identificado fora da área monitorada.

“Se todos trabalharmos juntos e seguirmos essas diretrizes de tratamento e restrição de movimentação, não há razão para acreditar que essa incursão resultará em qualquer tipo de estabelecimento da praga em nosso lado da fronteira”, declarou Rollins durante teleconferência com jornalistas.

Como age a bicheira-do-novo-mundo

Diferentemente de outras espécies de moscas que se alimentam de tecidos mortos, a bicheira-do-novo-mundo é considerada uma das pragas mais destrutivas para a pecuária porque suas larvas se alimentam de tecido vivo.

As fêmeas depositam ovos em feridas abertas ou membranas mucosas de animais de sangue quente. Após a eclosão, centenas de larvas penetram na carne utilizando estruturas bucais afiadas, ampliando rapidamente as lesões e podendo levar o animal à morte caso não haja tratamento imediato.

A praga afeta bovinos, equinos, ovinos, caprinos, suínos, animais silvestres e até seres humanos em casos raros.

Bicheira-do-novo-mundo: Prejuízo pode superar US$ 1,8 bilhão

O temor do setor é que a infestação avance para outras regiões produtoras dos Estados Unidos.

De acordo com especialistas citados pela Reuters, caso a bicheira-do-novo-mundo se espalhe amplamente pelo Texas, as perdas econômicas podem alcançar até US$ 1,8 bilhão, considerando mortalidade animal, tratamentos veterinários, restrições comerciais e impactos na produção pecuária.

Além disso, entidades do setor alertam que uma infestação em larga escala poderia reduzir ainda mais a oferta de bovinos para abate, pressionando os preços da carne e agravando um cenário já delicado para frigoríficos e consumidores.

Rebanho dos EUA já está no menor nível em 75 anos

A preocupação das autoridades não é apenas sanitária.

A própria Reuters destaca que o rebanho bovino norte-americano atravessa seu menor patamar desde a década de 1950. Nos últimos anos, secas prolongadas elevaram os custos com alimentação animal e forçaram milhares de pecuaristas a reduzirem seus plantéis.

Como consequência, grandes indústrias como a JBS, Cargill e Tyson Foods enfrentam dificuldades para encontrar animais suficientes para abastecer suas unidades de processamento de carne bovina.

Governo intensifica combate e bloqueia importações

Na tentativa de impedir a disseminação da praga, o USDA já vinha adotando medidas preventivas nos últimos meses.

O governo norte-americano investiu milhões de dólares em programas de vigilância sanitária e decidiu bloquear a entrada de gado proveniente do México. Segundo Brooke Rollins, os portos de entrada permanecerão fechados para animais mexicanos por tempo indeterminado.

Além disso, todas as principais estradas que deixam a região de La Pryor passaram a contar com postos de fiscalização, onde veículos transportando animais são obrigados a parar para inspeções sanitárias.

Estratégia aposta em moscas estéreis

A principal arma utilizada pelos Estados Unidos contra a bicheira-do-novo-mundo continua sendo a mesma que permitiu sua erradicação nos anos 1960: a liberação de machos estéreis.

O método consiste em criar milhões de moscas em laboratório, esterilizá-las e soltá-las na natureza. Quando esses machos cruzam com fêmeas selvagens, os ovos gerados tornam-se inviáveis, reduzindo gradualmente a população da praga.

O USDA iniciou neste ano a construção de uma nova instalação destinada à produção de moscas estéreis, considerada pelos especialistas a ferramenta mais eficaz de controle. Entretanto, a unidade só deverá entrar em operação no final de 2027.

Enquanto isso, as autoridades intensificaram as liberações aéreas e terrestres na área afetada.

“Estamos realmente inundando a zona nesta área afetada”, afirmou Dudley Hoskins, subsecretário do USDA, referindo-se à soltura massiva de moscas estéreis na região.

“Parece filme de terror”

A gravidade da situação levou autoridades estaduais a classificarem o episódio como uma emergência para a agropecuária norte-americana.

Em entrevista à Reuters, Nate Sheets, candidato republicano ao cargo de comissário de Agricultura do Texas, resumiu o sentimento que domina o setor:

“A bicheira-do-novo-mundo parece coisa de filme de terror, mas é real.”

“É uma emergência agrícola.”

Para a pecuária global, o avanço da praga nos Estados Unidos serve como alerta sobre a importância da vigilância sanitária permanente. Em um mercado cada vez mais integrado, surtos sanitários podem provocar impactos que vão muito além das fronteiras de um único país, afetando comércio, preços e a segurança dos rebanhos em escala internacional.

Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias.

Por: Redação

Artigos Relacionados: