• Terça-feira, 9 de junho de 2026

Conflito no Oriente Médio altera estratégia de compra de fertilizantes e leva produtores a buscar alternativas

Tensões no Oriente Médio elevam custos e reduzem importações em 5%, levando agricultores brasileiros a recalcular estratégias e buscar insumos alternativos para a safra.

A escalada das tensões no Oriente Médio continua gerando reflexos no agronegócio global e já provoca mudanças no comportamento dos produtores brasileiros na hora de adquirir fertilizantes. Com preços ainda elevados e relações de troca menos favoráveis, agricultores e importadores passaram a adotar uma postura mais cautelosa, reduzindo compras de alguns insumos tradicionais e ampliando a busca por alternativas mais competitivas.

Dados da consultoria StoneX mostram que o Brasil importou 14,6 milhões de toneladas de fertilizantes entre janeiro e maio de 2026, volume 5% inferior ao registrado no mesmo período do ano passado. A retração ocorre em um cenário de incertezas geopolíticas e custos elevados, fatores que têm limitado o avanço das negociações no mercado internacional.

Mercado global mais cauteloso

Segundo o analista de fertilizantes da StoneX, Tomás Pernías, o enfraquecimento da demanda não é um fenômeno exclusivo do Brasil. De acordo com ele, desde que os conflitos no Oriente Médio passaram a pressionar as cotações internacionais dos fertilizantes, produtores em diversas regiões do mundo passaram a agir com mais cautela.

“A demanda global perdeu tração, e o que se observa é um comportamento defensivo, cauteloso e seletivo por parte dos compradores”, destaca o especialista.

O movimento ocorre porque o aumento dos preços dos fertilizantes reduziu a atratividade das relações de troca, indicador que mede quantas sacas de grãos são necessárias para adquirir os insumos utilizados na produção.

Nem a queda da ureia reacendeu as compras

Um dos principais fertilizantes nitrogenados utilizados no Brasil, a ureia, registrou forte desvalorização nos últimos meses. Desde o pico alcançado em meados de abril, as cotações internacionais recuaram cerca de 32%, representando uma queda superior a US$ 250 por tonelada.

Mesmo assim, a redução não foi suficiente para impulsionar significativamente a demanda nacional.

De acordo com Pernías, os produtores seguem avaliando o mercado com cautela, aguardando condições mais favoráveis antes de ampliar suas aquisições para a próxima safra.

Sulfato de amônio e TSP ganham espaço

Enquanto as compras de alguns fertilizantes perderam ritmo, outros produtos vêm conquistando espaço na estratégia dos importadores brasileiros.

O levantamento da StoneX mostra que as importações de sulfato de amônio cresceram mais de 15% em comparação ao mesmo período de 2025. Já as compras de TSP (superfosfato triplo) avançaram expressivos 47% no acumulado do ano.

Segundo os analistas, o movimento sugere uma busca por opções que ofereçam melhor relação custo-benefício ou maior facilidade de aquisição diante do atual cenário de mercado.

A mudança reforça uma tendência observada nos últimos meses: produtores e distribuidores estão mais atentos à eficiência econômica dos insumos, ajustando suas estratégias de compra conforme as oportunidades surgem.

Compras podem ganhar força no segundo semestre

Apesar da desaceleração registrada até maio, a expectativa do setor é que as importações de fertilizantes nitrogenados voltem a acelerar nos próximos meses.

Historicamente, o mercado brasileiro intensifica as aquisições a partir de junho, período em que importadores e distribuidores iniciam a recomposição dos estoques para atender a demanda da safrinha e das próximas temporadas agrícolas.

A tendência é de crescimento gradual das compras ao longo do segundo semestre, especialmente se houver estabilização dos preços internacionais e melhora nas margens dos produtores.

Produção nacional também registra queda

Além do recuo nas importações, a produção brasileira de fertilizantes intermediários apresentou retração no início do ano.

Dados da Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda) apontam que a produção nacional somou 1,41 milhão de toneladas entre janeiro e março de 2026, uma redução de 16,2% em relação ao mesmo período do ano anterior.

A entidade ressalta, entretanto, que parte da produção nacional pode não ter sido integralmente contabilizada devido a mudanças societárias em empresas do setor e à retomada de operações em determinados ativos industriais.

Mato Grosso lidera as importações

No ranking dos estados que mais importaram fertilizantes no primeiro trimestre de 2026, o Mato Grosso manteve a liderança absoluta, com 2,45 milhões de toneladas adquiridas.

Na sequência aparecem:

  • Goiás: 1,10 milhão de toneladas;
  • São Paulo: 1,08 milhão;
  • Paraná: 1,02 milhão;
  • Minas Gerais: 882 mil toneladas;
  • Mato Grosso do Sul: 543 mil toneladas;
  • Bahia: 541 mil toneladas.
  • Dependência externa segue como desafio

    O cenário reforça um dos principais desafios estruturais do agronegócio brasileiro: a forte dependência de fertilizantes importados. Mesmo sendo uma potência agrícola global, o país ainda importa a maior parte dos nutrientes utilizados em suas lavouras.

    Por isso, qualquer instabilidade geopolítica em regiões produtoras ou exportadoras de insumos, como o Oriente Médio, acaba impactando diretamente os custos de produção e as decisões estratégicas dos agricultores brasileiros.

    Com o segundo semestre se aproximando, o mercado acompanha atentamente a evolução dos conflitos internacionais, os movimentos dos preços globais e o ritmo de recomposição dos estoques, fatores que serão determinantes para a formação dos custos da safra 2026/27.

    Por: Redação

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