A escalada das tensões no Oriente Médio continua gerando reflexos no agronegócio global e já provoca mudanças no comportamento dos produtores brasileiros na hora de adquirir fertilizantes. Com preços ainda elevados e relações de troca menos favoráveis, agricultores e importadores passaram a adotar uma postura mais cautelosa, reduzindo compras de alguns insumos tradicionais e ampliando a busca por alternativas mais competitivas.
Dados da consultoria StoneX mostram que o Brasil importou 14,6 milhões de toneladas de fertilizantes entre janeiro e maio de 2026, volume 5% inferior ao registrado no mesmo período do ano passado. A retração ocorre em um cenário de incertezas geopolíticas e custos elevados, fatores que têm limitado o avanço das negociações no mercado internacional.
Mercado global mais cautelosoSegundo o analista de fertilizantes da StoneX, Tomás Pernías, o enfraquecimento da demanda não é um fenômeno exclusivo do Brasil. De acordo com ele, desde que os conflitos no Oriente Médio passaram a pressionar as cotações internacionais dos fertilizantes, produtores em diversas regiões do mundo passaram a agir com mais cautela.
“A demanda global perdeu tração, e o que se observa é um comportamento defensivo, cauteloso e seletivo por parte dos compradores”, destaca o especialista.
O movimento ocorre porque o aumento dos preços dos fertilizantes reduziu a atratividade das relações de troca, indicador que mede quantas sacas de grãos são necessárias para adquirir os insumos utilizados na produção.
Nem a queda da ureia reacendeu as comprasUm dos principais fertilizantes nitrogenados utilizados no Brasil, a ureia, registrou forte desvalorização nos últimos meses. Desde o pico alcançado em meados de abril, as cotações internacionais recuaram cerca de 32%, representando uma queda superior a US$ 250 por tonelada.
Mesmo assim, a redução não foi suficiente para impulsionar significativamente a demanda nacional.
De acordo com Pernías, os produtores seguem avaliando o mercado com cautela, aguardando condições mais favoráveis antes de ampliar suas aquisições para a próxima safra.
Sulfato de amônio e TSP ganham espaçoEnquanto as compras de alguns fertilizantes perderam ritmo, outros produtos vêm conquistando espaço na estratégia dos importadores brasileiros.
O levantamento da StoneX mostra que as importações de sulfato de amônio cresceram mais de 15% em comparação ao mesmo período de 2025. Já as compras de TSP (superfosfato triplo) avançaram expressivos 47% no acumulado do ano.
Segundo os analistas, o movimento sugere uma busca por opções que ofereçam melhor relação custo-benefício ou maior facilidade de aquisição diante do atual cenário de mercado.
A mudança reforça uma tendência observada nos últimos meses: produtores e distribuidores estão mais atentos à eficiência econômica dos insumos, ajustando suas estratégias de compra conforme as oportunidades surgem.
Compras podem ganhar força no segundo semestreApesar da desaceleração registrada até maio, a expectativa do setor é que as importações de fertilizantes nitrogenados voltem a acelerar nos próximos meses.
Historicamente, o mercado brasileiro intensifica as aquisições a partir de junho, período em que importadores e distribuidores iniciam a recomposição dos estoques para atender a demanda da safrinha e das próximas temporadas agrícolas.
A tendência é de crescimento gradual das compras ao longo do segundo semestre, especialmente se houver estabilização dos preços internacionais e melhora nas margens dos produtores.
Produção nacional também registra quedaAlém do recuo nas importações, a produção brasileira de fertilizantes intermediários apresentou retração no início do ano.
Dados da Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda) apontam que a produção nacional somou 1,41 milhão de toneladas entre janeiro e março de 2026, uma redução de 16,2% em relação ao mesmo período do ano anterior.
A entidade ressalta, entretanto, que parte da produção nacional pode não ter sido integralmente contabilizada devido a mudanças societárias em empresas do setor e à retomada de operações em determinados ativos industriais.
Mato Grosso lidera as importaçõesNo ranking dos estados que mais importaram fertilizantes no primeiro trimestre de 2026, o Mato Grosso manteve a liderança absoluta, com 2,45 milhões de toneladas adquiridas.
Na sequência aparecem:
O cenário reforça um dos principais desafios estruturais do agronegócio brasileiro: a forte dependência de fertilizantes importados. Mesmo sendo uma potência agrícola global, o país ainda importa a maior parte dos nutrientes utilizados em suas lavouras.
Por isso, qualquer instabilidade geopolítica em regiões produtoras ou exportadoras de insumos, como o Oriente Médio, acaba impactando diretamente os custos de produção e as decisões estratégicas dos agricultores brasileiros.
Com o segundo semestre se aproximando, o mercado acompanha atentamente a evolução dos conflitos internacionais, os movimentos dos preços globais e o ritmo de recomposição dos estoques, fatores que serão determinantes para a formação dos custos da safra 2026/27.





