• Terça-feira, 24 de março de 2026

“Boi de mochila”: tecnologia brasileira mede metano e revoluciona a pecuária; entenda

Pesquisa desenvolvida no interior de São Paulo utiliza sensores instalados nos animais - por isso o termo “Boi de mochila” - para monitorar emissões de metano e identificar linhagens genéticas mais eficientes, abrindo caminho para uma pecuária mais sustentável e produtiva

Pesquisa desenvolvida no interior de São Paulo utiliza sensores instalados nos animais – por isso o termo “Boi de mochila” – para monitorar emissões de metano e identificar linhagens genéticas mais eficientes, abrindo caminho para uma pecuária mais sustentável e produtiva A pecuária brasileira, frequentemente apontada como uma das principais fontes de emissão de gases de efeito estufa, pode ganhar um aliado tecnológico inusitado: o chamado “boi de mochila”, um sistema que permite medir com precisão quanto metano cada animal emite. A inovação, desenvolvida por pesquisadores do Instituto de Zootecnia (IZ), em São Paulo, utiliza sensores portáteis instalados nos bovinos para coletar dados sobre a emissão de gases durante a digestão, abrindo novas perspectivas para seleção genética de animais mais eficientes e ambientalmente sustentáveis. A tecnologia consiste em um dispositivo semelhante a uma pequena mochila, acoplado ao animal por meio de um tubo conectado às narinas. O equipamento coleta os gases liberados durante a respiração e a eructação — o conhecido “arroto” do boi — e registra informações detalhadas sobre o volume de metano emitido por cada indivíduo.
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  • Essa abordagem representa um avanço importante para a ciência agropecuária, pois permite medir as emissões de forma individualizada, em vez de trabalhar apenas com estimativas gerais de rebanhos. Com isso, pesquisadores conseguem identificar quais animais apresentam melhor desempenho ambiental sem comprometer a produtividade. window._taboola = window._taboola || []; _taboola.push({mode:'thumbnails-mid', container:'taboola-mid-article-thumbnails', placement:'Mid Article Thumbnails', target_type: 'mix'});Como funciona o “boi de mochila” À primeira vista, o equipamento pode parecer apenas um acessório curioso. No entanto, trata-se de um sistema tecnológico avançado de monitoramento de gases entéricos, desenvolvido para estudar o metano produzido durante a digestão dos ruminantes. Os dados coletados indicam que cerca de 95% do metano emitido pelos bovinos sai pela boca, principalmente por meio da eructação e da respiração. A partir dessas medições, cientistas conseguem calcular com precisão a pegada de carbono de cada animal e compreender como fatores como genética, dieta e manejo influenciam a emissão do gás. O equipamento utilizado nos experimentos possui componentes importados combinados com peças desenvolvidas no Brasil, projetados para suportar as condições do campo e permitir medições contínuas durante o manejo normal do rebanho. Genética pode reduzir até um terço da emissão de metano Um dos resultados mais promissores da pesquisa está relacionado à genética bovina. Os estudos realizados pelo Instituto de Zootecnia indicam que cerca de 30% da variação na emissão de metano entre bovinos tem origem genética. Isso significa que é possível selecionar touros e matrizes que produzem menos gás sem perder desempenho produtivo. Na prática, essa descoberta abre caminho para programas de melhoramento genético voltados à sustentabilidade. Ao selecionar animais que emitem menos metano para a mesma produção de carne, o setor pode reduzir significativamente sua pegada ambiental ao longo das próximas gerações. O projeto começou em 2018, com experimentos envolvendo principalmente machos da raça Nelore, predominante na pecuária brasileira. Mais recentemente, os testes também foram ampliados para animais da raça Canchim, permitindo comparar diferentes perfis genéticos. Nutrição também influencia a emissão de metano Embora a genética tenha um papel importante, a maior parte da emissão de metano ainda depende do ambiente e da alimentação dos animais. De acordo com os estudos conduzidos pelo Instituto de Zootecnia e pela Embrapa, aproximadamente 70% das variações nas emissões estão ligadas à dieta e às condições de manejo. Nesse contexto, pesquisadores também investigam o uso de aditivos nutricionais capazes de reduzir a produção de metano no rúmen, entre eles:
  • Lipídios e ácidos graxos, que diminuem a fermentação entérica e aumentam a eficiência energética da dieta;
  • Taninos e saponinas, compostos naturais presentes em plantas que reduzem microrganismos responsáveis pela metanogênese;
  • Óleos essenciais, como extratos de cravo, canela e orégano, capazes de alterar a microbiota ruminal;
  • Aditivos sintéticos como o 3-NOP, desenvolvido especificamente para bloquear a enzima que produz metano na digestão;
  • Uso de nitratos, que desviam o hidrogênio do processo que formaria o gás metano.
  • A combinação de genética mais eficiente com estratégias nutricionais pode acelerar a redução das emissões nos sistemas de produção comercial. Pecuária e o desafio climático A redução das emissões de metano é considerada estratégica para o combate às mudanças climáticas. O gás possui alto potencial de aquecimento global e é responsável por uma parcela relevante do efeito estufa. No Brasil, mais de 75% das emissões de metano estão ligadas ao setor agropecuário, especialmente à digestão de ruminantes. Por isso, iniciativas que permitam reduzir esse impacto sem comprometer a produção de alimentos ganham cada vez mais relevância. Segundo os pesquisadores envolvidos no projeto, a capacidade de medir individualmente as emissões permite construir inventários ambientais mais precisos e orientar políticas públicas voltadas à pecuária de baixo carbono. Ciência brasileira e a nova pecuária sustentável O desenvolvimento do “boi de mochila” faz parte de uma rede de pesquisas coordenada com apoio da Embrapa, responsável pela análise química dos gases coletados e pela integração dos dados com estudos realizados em diferentes regiões do país. A iniciativa busca demonstrar que produção de proteína animal e responsabilidade climática podem caminhar juntas, reforçando o papel da ciência brasileira na construção de uma pecuária mais eficiente. Ao identificar animais que produzem menos metano e ao aperfeiçoar estratégias de alimentação, o país pode reduzir significativamente o impacto ambiental do rebanho sem abrir mão da competitividade no mercado global de carne bovina — um fator decisivo para um dos maiores produtores e exportadores de proteína animal do mundo.
    Por: Redação

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