A Justiça de Minas Gerais deferiu o pedido de recuperação judicial da Aliança Agrícola do Cerrado, uma das tradings relevantes no processamento de soja no Brasil, em uma decisão que escancara os impactos da volatilidade do mercado e do aumento dos custos financeiros sobre empresas do agronegócio. A medida, assinada pela juíza Claudiana Silva de Freitas, da 10ª Vara Cível de Uberlândia (MG), suspende por 180 dias todas as cobranças contra a companhia e estabelece um prazo de 60 dias para apresentação de um plano de recuperação.
A empresa tenta renegociar um passivo que gira em torno de R$ 1,16 bilhão a mais de R$ 1,6 bilhão, dependendo da base considerada, envolvendo aproximadamente 1.000 credores, entre bancos, fundos, cooperativas e produtores rurais.
Disputa judicial e risco de colapso financeiroAntes da decisão, a companhia enfrentava uma intensa disputa judicial com credores, com mais de 90 ações envolvendo ativos como soja, farelo, óleo e contas bancárias, além de cerca de R$ 380 milhões retidos em garantias bancárias.
Segundo a magistrada, a liberação imediata desses recursos para credores individuais poderia comprometer o caixa da empresa e inviabilizar a continuidade das operações, justificando a concessão da recuperação judicial como forma de organizar as negociações coletivas.
A decisão marca o fim de meses de incertezas jurídicas e cria um ambiente mais estruturado para negociação com credores, evitando o desmonte financeiro da companhia em meio à pressão por pagamentos.
Operação mantida e estratégia para gerar caixaUm dos pontos decisivos para o deferimento foi a comprovação de que a empresa segue em operação. Um laudo técnico apontou que as unidades industriais localizadas em Uberlândia (MG), Bataguassu (MS) e São Joaquim da Barra (SP) continuam ativas.
Além disso, a companhia adotou uma estratégia considerada fundamental para sua sobrevivência: um contrato de industrialização no modelo tolling com a ADM do Brasil, no qual a multinacional fornece a soja e a Aliança realiza o processamento, recebendo pelo serviço sem precisar adquirir a matéria-prima.
Esse modelo reduz a necessidade de capital de giro e garante fluxo de caixa, sendo visto pela Justiça como um elemento-chave para sustentar a recuperação operacional do grupo
A origem da crise está diretamente ligada a um cenário adverso para o setor. A própria empresa aponta como fatores determinantes:
Esses elementos, combinados, afetaram a liquidez e a capacidade de pagamento da companhia, levando ao pedido de recuperação judicial.
O problema ganhou força no início de 2026, quando a empresa deixou de honrar pagamentos de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) emitidos em 2023, que haviam captado cerca de R$ 147 milhões.
A inadimplência levou à execução de garantias por parte da securitizadora e ao pagamento de investidores, além de desencadear medidas drásticas, como a demissão de 344 funcionários e o fechamento temporário de unidades industriais.
Estrutura societária e consolidação das empresasO processo de recuperação judicial abrange não apenas a Aliança Agrícola do Cerrado, mas também outras empresas do grupo:
As três foram incluídas sob o modelo de consolidação substancial, sendo tratadas como uma única estrutura empresarial, já que compartilham sede, funcionários e operação integrada.
O grupo é controlado pela multinacional russa Sodrugestvo, por meio de uma holding sediada em Luxemburgo.
Principais credores da Aliança Agrícola do Cerrado e impacto no agroEntre os maiores credores estão instituições financeiras e fundos relevantes:
Além deles, há produtores rurais e cooperativas diretamente impactados, especialmente aqueles com contratos vinculados à safra 2025/26.
Um ponto importante da decisão é que fiadores e avalistas não estão protegidos pela recuperação judicial, permanecendo sujeitos a cobranças individuais — o que amplia os efeitos da crise sobre o ecossistema do agro.
Suspeitas de fraude foram descartadasDurante o processo, alguns credores levantaram suspeitas de que a Aliança Agrícola do Cerrado estaria utilizando a recuperação judicial como estratégia para ocultar patrimônio. No entanto, após análise técnica, o laudo pericial não encontrou indícios de fraude, desvio de ativos ou manipulação societária, o que reforçou a decisão judicial favorável ao grupo.
Com o deferimento da recuperação judicial, a Aliança Agrícola entra agora na fase mais crítica do processo: a construção de um plano de pagamento que seja aceito pelos credores e que permita a continuidade das operações.
O prazo de 60 dias será decisivo para definir o futuro da empresa, que precisa equilibrar renegociação de dívidas, retomada operacional e geração de caixa em um cenário ainda desafiador para o agronegócio global.
O caso reforça um movimento crescente no setor: mesmo empresas estruturadas e integradas ao comércio internacional estão sendo pressionadas por margens apertadas, custos elevados e volatilidade de mercado — um alerta importante para toda a cadeia produtiva do agro brasileiro.
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias.





